terça-feira, 14 de abril de 2020

Norte e Alentejo, semelhanças nas diferenças

Sou uma alentejana apaixonada pelo norte. Especialmente pelo Porto e toda a região vitivinícola demarcada do Douro. Poderia escrever sobre isso, talvez ainda o venha a fazer, mas o que hoje me faz reflectir aqui, neste espaço de partilha, prende-se com a reportagem transmitida ontem pela TVI que, espantosamente, concluiu que em termos epidemiológicos a pobreza e a educação são factores preponderantes de transmissão de Covid-19, ilustrando a questionável reportagem com uma imagem da cidade do Porto.


Após leitura do post do Dr. Rui Moreira, em resposta a esta reportagem, cuja leitura aconselho (aqui), dei por mim embrulhada numa análise reflexiva sobre o quanto a região Norte e o meu Alentejo são semelhantes nas suas diferenças. E escrevi o seguinte:


 


No meu tempo (e neste tempo à deriva que passa diante de si próprio e não sei a quem pertence), havia um país pequenino à beira-mar plantado. Um país tão pequenino, que era possível percorrê-lo de norte a sul em cinco horas. Mas, também, um país, por vezes, tão mais pequeno que era possível, pelo senso rudimentar de alguns dos seus habitantes, reduzi-lo a uma área não superior aos metros quadrados da sua própria habitação. Um país tão pequenino, que era possível, imagine-se, ao poder político esquecer algumas das suas regiõe, por tão diminutas, subtraindo mais um bocadinho de terra sistematicamente.


Um país tão pequenino, que a própria comunicação social ousava fragmentar ainda mais, em tempos onde o tempo já não pertence a ninguém.
No meu tempo havia um norte trabalhador, suado, historicamente abandonado, educado, resiliente, entregue a si próprio e sustentado pelo investimento privado, pela visão, persistência, insistência e acção de alguns. Existia um norte cuja história não foge à realidade da história do sul. Deste meu Alentejo à deriva e descurado, tão grande e quase invisível. De gentes que lavram o próprio pão, que trabalham o triplo para conseguir alguma coisa, de suor e lágrimas, de persistência e igual resiliência, de superação e reinvenção em circuito permanente, mas sem a sorte de igual sustento, numa escala equalitária, por parte do investimento privado. Um Alentejo onde também não falta educação, visão, nem exemplos de acção, de vontade, de revolta e superação. Um Alentejo onde o sonho é sempre maior do que a sorte.


No meu tempo havia um país onde se tiravam conclusões epidemiológicas baseadas em premissas como educação e pobreza, transmitidas na televisão.
Um país onde, quantas vezes, é a pobreza, também ela, vítima de centralização. Sim, a pobreza de espírito. Um país onde a educação seja ela cultural, política, científica, emocional, educativa ou social (baseada nos princípios que defendem os Direitos Humanos e nos pressupostos da vivência numa sociedade democrática) deverá ser acessível a todos, de igual forma de norte a sul. Sob pena de se disseminarem, por falta dela, outras epidemias sociais e cívicas, quiçá, mais perigosamente atacantes e nacionalmente contagiosas.
Porque, não nos esqueçamos, num país tão pequenino, contempla-se o umbigo em Lisboa, põem-se os olhos a norte e as costas permanecem voltadas a sul.


Não. Não é a educação, nem a pobreza.
É a pequenez cada vez mais pequenina e poderosamente centralizada, em Portugal. 


 


 

5 comentários:

entreaspas disse...

Adoro o teu Alentejo.
Penso que actualmente a Rota Vicentina representa um valor enorme na economia local e regional dado os que tem nas empresas que operam no terreno, e que apostam numa lógica de parcerias e iniciativas que fomentam a utilização de produtos locais e de serviços ou atividades geridas pelas próprias comunidades, como o alojamento e a restauração.
E porque não falar do artesanato, produtos locais... como o mel de medronheiro, a aguardante de medronho das Serras de Monchique, as broas de batata doce, e a manteiga de alcagoites são também eles importantes difusores da região.
Eu acho o Alentejo uma região fantastica ainda que possam existir muitas assimetrias com o Norte, Questões culturais.... pobreza de espírito...de visão...mas o Alentejo tem um valor imenso.
Bonito teres orgulho das tuas raizes. 🌈

Rita PN disse...

A Costa Vicente infelizmente por um lado, felizmente por outro, a lancou o turísmo de verão. Tem prais únicas e absolutamente incríveis. É um pouco de paraíso na terra. Com isso desenvolveram-se sectores comos os que referes. Mas não só. Eu vivo em Beja, Alentejo inteiror, e o meu distrito é o maior responsável pelo aumento do PIB português. Espanto? Aqui trabalha-se arduamente. O Alqueva veio mudar o paradigma da agricultura e da tecnologia utilizada na agricultura. Para o mal ou para o bem temos milhares de hectares de olival intensivo e super intensivo, amendoal, frutos diversos, plantas medicinais, fabricas de transformação desse produto, muitas starups inovadoras, empresas de recnologia, empresas de aeronáutica como a Hifly, MESA, entre outras, temos o eco turismo, o turísmo rural, o turísmo gastrónomico, o turismo vínico... Temos laboratórios, temos a quarta melhor escola de enfermagem do país, temos tanta coisa e coisa nenhuma porque falta desenvolvimento, faltam esreadas, falta comboio, falta saúde, falta um olhar do governo sobre o seu maiir aliado económico nos últimos 3 anos. Faltam jovens e crianças, falram adultos que queiram aqui trabalhar e viver. Falta olhar para o Alentejo com olhos de ver. Mas infelizmente só se olha para o laser... Nós somos mesmo muito mais.

cheia disse...

O nosso Alentejo, mesmo estando na moda, continua, como antigamente,desprezado pelo poder político. Tem o maior aeroporto do país. Mas, na capital do Distrito, não há autoestrada, nem modernos comboios, numa região que, depois do Alqueva, tem uma grande produção.

Boa noite

Rita PN disse...

Amigo, havemos de vencer esta luta. Quando não sei. Mas venceremos.
Obrigado pela leitura e pelo desabafo da Terra. Um beijinho

entreaspas disse...

Verdade 🌈

Hipoteticamente

Dista-nos um quarteirão de luar onde, na sombra, os detalhes se ensaiam, os elementos se vestem de harmonia e onde todas as ruas parecem reg...