Em ti tudo é naufrágio,
abandonado o cais da lisura,
nenhum regresso ensejes.Arde a candura inflamada
nos peitos ilusos,
por teu marear clandestino, desfeitos.
Obtusos caminhos e desejos,
onde ardem candeias fúnebres;
cemitério de almas puras e corpos sinceros…
Oh ilha, de solidão cercada,
em ti tudo é naufrágio!
Temor do esquecimento que te avassala
e despedaça, como copo de cristal nas mãos
vazas de uma criança.
Estala, coração tártaro!
De deslustre em deslustre,
derrocada por desonra: peito, leito e travesseiro adúltero.
Na infância da negritude teu ser ferido,
carrega em braços a cruz do amor impuro
que não prospera.
Porão de escombros,
homem perdido,
olhar de assombros,
corpo encardido,
mortalha de tantas mulheres...
Impuro.
Tudo em ti é naufrágio.
6 comentários:
Perdes-te em destroços, de aquilo que foste e onde o eras.
Atravessas a costa espumante de um mar imenso, mas viras-lhe as costas e concentras-te na terra suja e no pútrido bote onde outrora navegaste, esse que encalhou-te no pensamento da saudade.
O que hei-de eu dizer? Sei-o também, que por mais que gritando a nossa mente não obedece... Quer ela sentir algo, e como nós mais nada interiorizamos, faz dela o passado a nossa e a dela perdição.
Como o passado foi tanta vida, como é o passado que já não muda, é desse que temos pena, sendo que no futuro podemos fazê-lo diferente. São as forças para mudar, que mesmo as tendo, falham-nos sempre, pois hora ou outra, está a mente perdida em lágrimas salgadas, desaguando na mesma costa, onde deixaste o sentimento saudade.
Aqui, não falo de mim. Todo o poema encerra um alguém que não eu. É o seu retrato, aos olhos claros da realidade, agora nítida.
Se pintasse, seria uma tela. Como escrevo, é um poema.
Existem passados que não foram, porque simplesmente as pessoas não existiam. Eram apenas encenação. E dessas não ficam lembranças. Apenas permanece o real. Porque no final o pano cai.
Doloroso... :-(
Tantas vidas retratadas
Nas entrelinhas disfarçadas
De pessoas desesperadas
No amor, naufragadas.
Quantas vidas... efetivamente...
Muito obrigada amigo José! Um beijinho
A vida também tem disto...
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