Afirmei, no meu último poema "Tenho sempre tantas coisas dentro da cabeça". E tenho. Coisas demais. Tantas que, por vezes, nem me chegam, mas ocupam espaço. Transporto também as inúteis, assim me vou transportando, entre uma palavra e a seguinte, entre um verso e a ultima estrofe. Entre um artigo que passou de fugida pelos olhos de alguém e outro que não terá o nível esperado de interesse para ninguém.
Vou. Com tanta coisa dentro da cabeça. Mas sempre só. As coisas, essas tantas, foram sempre a minha melhor companhia e, por conseguinte, também eu - para mim - assim me fui sendo, ao construir-me lego do saber de outros.
Momentos tenho em que não me suporto. Tão pouco ao mundo. E fico, por ali, a um canto da vida, à espera que passe, aproveitando para colocar mais alguma coisa dentro da cabeça. Chegarei à loucura. Estou certa. Mas é-me abominavelmente assustador pensar na possibilidade de não pensar em coisa nenhuma, não ter nada para dizer, ou não saber tão pouco poemas de cor. De me arrastar vazia por aí a falar do tempo, e de como vai mal o país e a vida da gente, sempre contente por nada saber. Sentar-me numa mesa de um café vazio e pegar no jornal da terra, para ver a necrologia, lamentando quem já foi e ficando contente por não ser eu quem lá se apresenta. Mas... e o que ando eu por aqui a fazer? Sempre com tantas coisas dentro da cabeça que para nada me servem, a não ser para escrever aquilo que nunca será lido, para lá das casas onde vivo (que é como quem diz, para além de quem me aperfilhou p'lo coração. E que até nem gosta de ler).
Há dias assim, em que, com tantas coisas dentro da cabeça, não sei de mim e me perco num labirinto que eu própria desenhei. Expressar não me sei, e fiquei parada, suspensa, num poema que alguém escreveu por mim também.
Alexandre O'Neil brindou-nos com "Palavras que nos beijam" de todas as formas, afirmando que a seu favor tinha "o verde secreto dos teus olhos". E dos meus, terá certamente.
Hoje, O'Neil vem, por mim, expressar o que eu não sei. E é assim que "O poeta sai de chofre, por uns tempos desalmado..."

4 comentários:
Gostei do seu texto-desabafo. Bom fim de semana.
Muito obrigado pela sua visita e pelas palavras, "Simplesmente Avô". É, de facto, um desabafo.
Bom fim de semana
" o poeta sai de chofre, por uns tempos desalmado ..."
Bom fim-de-semana.
É um verso fabuloso. Poderia tentar escrecê-lo de todas as formas e nenhuma diria tanto.
"Desalmado"...
Um beijinho, amigo
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