quinta-feira, 12 de março de 2020

Sobre liberdade e responsabilidade, mas também sobre quarentena, arte e reinvenção

Nós, os humanos, não vivemos sozinhos. Estabelecemos relações diariamente, vivendo em sociedade com normas estabelecidas.
Entre moral, ética, responsabilidade e liberdade importa reter a relação de complementaridade que existe entre elas. Desta forma, o Homem será sempre responsável pelos actos que pratica, com e em liberdade.
E se a liberdade pressupõe capacidade de escolha, pressupõe igualmente ponderação de riscos e competência para os assumir. O acto livre é, e continuará a ser, um acto pelo qual devemos responder e responsabilizar-nos, mas, para tal, é necessário maturidade.

Quando vivemos sobre a autoridade de um país é fácil apontar o dedo e lamentarmos as medidas mais ou menos rígidas que nos são impostas, mesmo perante um surto epidémico, onde a palavra de ordem é agir no sentido da redução da propagação descontrolada do vírus, através da aplicação de métodos de controlo.
Embora impopulares, medidas como a quarentena são necessárias e de eficácia comprovada em momentos anteriores da nossa História. E como tal, devemos respeitá-las.
Com eventos cancelados, viagens suspensas, edifícios fechados, o crescimento diário de casos de isolamento, a vida fica mais chata… mas aglomerações humanas na praia, shopping’s ou jardins também não são opção. Sim, é necessário evitar temporariamente o contacto humano, embora sejamos animais de relações.
E é aqui que recai a nossa liberdade de escolha em se ser ou não responsável, em dar ou não ouvidos à persuasão do facilitismo e em continuarmos ou não a ser hospedeiros de um outro vírus, o do egoísmo e egocentrismo, que raras vezes tememos. Não seria agora diferente. Pensar que somos, nós próprios, um risco para os demais, obriga-nos a olhar para o mundo e para os outros, ao invés de estarmos e continuarmos aqui apenas como passageiros na nossa bolha. Afinal servimo-nos dos olhos e do entendimento, assim como das situações, na óptica do favorecimento pessoal e, por isso, permaneceremos reclusos dos actos que em liberdade praticamos. Queremos ser livres, mas não sabemos sê-lo.

Por outro lado, e por oposição ao desinteresse existe o medo, que não será um comportamento tido como de menor risco. É certo que o nosso cérebro está programado para reagir de uma determinada maneira quando vivenciamos situações de grande incerteza ou stress. O lado emocional facilmente se sobrepõe ao racional, resultando, muitas vezes, em comportamentos irracionais: luta, bloqueio ou fuga. Em alerta constante, num instinto de sobrevivência, tornamo-nos igualmente egoístas, e as corridas aos supermercados enchendo carrinhos são reflexo disso mesmo. Ganha a inconsciência e o maior poder de compra... sim, não chegará para todos. Quer-se bom senso e consciência, respeito, equilíbrio e mais uma vez responsabilidade na liberdade individual.

Apedrejar autocarros com pessoas suspeitas de infecção como ocorreu na Ucrânia, ou discriminar cidadãos chineses e italianos também não será um acto responsável. Porém, vale-nos um outro lado, o da entreajuda, o da união, o da consciencialização que muitas vezes nos chega através do meio artístico, o da vontade de vencer as vicissitudes tendo por base a magia humana (que, espantem-se, existe), a bondade, o amor e o altruísmo.

Em período de quarentena, sejamos criadores e não destruidores, porque necessitaremos dessa nossa capacidade de reinvenção quando tudo isto findar. Aproveitemos o tempo para pensar, para ler, para descansar, para criar (seja qual for a nossa arte ou dom), para transformar positivamente os tempos difíceis que se atravessam, porque o mundo estagna, a normalidade tarda em retornar, mas as pausas da vida apenas nos ensinam a encará-las como oportunidades de preparação para um futuro incerto.

Encontramo-nos por aí, na esquina de um abraço musical, de um olhar poético, de um beijo fotográfico, do êxtase de uma pintura… do amor resultante do encontro entre as mãos e alma.


 


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4 comentários:

Vagueando disse...

Se está de quarentena voluntária teve uma excelente inspiração, socialmente responsável e aproveitou-a da melhor forma para chamar a atenção para aquilo que muitas vezes se ignora, a nossa liberdade termina exactamente no ponto onde começa a do outro.
Se não está de quarentena, por ser obrigada a trabalhar, é ainda mais louvável este seu post.
Pela minha parte também já me debrucei sobre o Covi19 mas na perspectiva humoristica. É que se o vírus é grave, não é o humor de um post que contamina, apenas ajuda a descomprimir.
Parabéns

Rita PN disse...

Antes de mais, muito obrigado pela leitura e pelas palavras. De facto não estou, trabalho num sector onde não existe liberdade de escolha no que à quarentena diz respeito. Porém, existe liberdade para escolher ser responsável e precavida, por mim e pelos demais. Contacto diariamente com inúmeras pessoas e é agoniante ver a falta de bom-senso e desrespeito pelos conselhos badicos da DGS. Aqui, somos todos iguais. Ninguém está imune e é urgente pensar que somos nós próprios uma ameaça para os demais.
Não é o fim do mundo, mas é o fim do mundo que até agora tínhamos conhecido. Sejamos nós os criadores de algo melhor.

Carla disse...

Excelente Rita! ... Devemos saber agir em consciência!!! ...
E gosto de olhares poéticos! 😉
Beijinhos 😍🎈🌸

Rita PN disse...

Carla, muito obrigado 😊🙏 olhares poéticos desarmam-nos, não é? Um beijinho (por aqui é seguro)

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