terça-feira, 29 de maio de 2018

A Falsa Felicidade nas Redes Sociais

UM DESABAFO... 


“Vivemos numa espécie de toxicodepêndencia digital”, quem o diz é o Professor e Psicólogo Eduardo Sá.


Sucessivamente agarrados às redes sociais, o smartphone tornou-se para nós um refúgio, evitando o diálogo e permitindo o auto isolamento na presença de terceiros. Construímos relações que não dependem do contacto pessoal e directo, da aproximação física, da partilha em tempo real do mesmo espaço, conversa, emoções, realidade envolvente, mas sim de uma conexão virtual. Lógicamente, a possibilidade da criação destes vínculos online permite-nos estar em contacto com um sem número de pessoas, contudo, e para que tal seja possível, é –nos necessário o isolamento. Só dessa forma nos é possível estar presentes nas diversas redes sociais e ligarmo-nos aos demais. Este fenómeno de nova solidão social tem vindo a instituir no seio da sociedade uma clara dificuldade no exercício do diálogo frente a frente, assim como no desenvolvimento saudável das relações humanas, sejam elas familiares, sociais, emocionais ou profissionais.


Paradoxalmente, dispomos hoje em dia de um conjunto de ferramentas diversas que nos ajudam a comunicar, mas que nem sempre nos ensinam a ser mais comunicativos. Vivemos no seio da “sociedade da comunicação”, mas cada vez mais nos viramos para nós próprios.


Em linha, nos últimos anos, tornámo-nos especialistas em descrever a nossa existência através de imagens (os pés na areia ou à lareira, as bebidas à beira da piscina, as festas de sábado à noite, os jantares, os almoços, os pequenos-almoços, a roupa, as férias, as viagens…)
Sem nos darmos conta, o nosso quotidiano viu-se inundado de “falsas felicidades” sustentadas por fotografias, tantas vezes capturadas e pensadas para o efeito.


O “estar bem” deixou de ser um caminho pessoal para se tornar uma imposição social. Mostrá-la, à felicidade, é uma exigência que colocamos a nós próprios e que, por consequência, projectamos para os demais, apenas aceitando quem dela partilha. As fragilidades do ser humano deixaram de ter lugar, assim como a consciência de que somos falíveis, que erramos, que choramos, que sofremos, que passamos por dificuldades num ou noutro momento, que a tristeza é tão válida quanto a alegria, que não acordamos nem adormecemos perfeitos, tão pouco 100% realizados e sem quaisquer problemas na vida.
E é esta "falsa felicidade" que tantas vezes cria, em quem assiste, um sentimento de inadaptação ao meio, frustração por não conseguir atingir determinados patamares de plenitude, objectivos que parecem tão fáceis de serem alcançados, desânimo por não emanar uma luz que, na verdade, é produzida e não natura, desalento por não se ser tão bem sucedido quanto aqueles que nos são mostrados, um sentimento de culpa pela falta de realização pessoal e por falhar no caminho para a aceitação segundo parâmetros questionáveis.


Na verdade, as imagens que diariamente publicamos não operam, nem trabalham sozinhas a estrada da plenitude. Necessitam de nós. Da nossa validação. Dos nossos “likes”, aplausos, comentários e partilhas que, por educação, nos são retribuídos.


“Arrasando” ou “Divando” por aí, num mundo condicionado pela opinião de terceiros, escolhemos mostrar a forma como queremos ser vistos, numa auto-representação quantas vezes exagerada da felecidade que: será que é nossa?
No caso do Instagram, a rede social mais utilizada para a partilha e difusão da imagem, são os próprios quem escolhe a estratégia relacionada com a forma como querem ser. Eu diria parecer. (Creio, entre tanta solicitação que o presente nos estende, não sobrar espaço para reflectir sobre o que se pretende realmente comunicar sobre si próprio). Assim, não rotulemos as redes como produtores gratuitos da “falsa felicidade” quando, na verdade, elas são meros veículos condutores, ou se quisermos, grandes vitrines pensadas para a exibição de modelos diversos.


É um facto que existe uma clara necessidade de aparentar ou seguir um determinado estilo de vida, e estado de espírito, e é isso que nos torna produtores e disseminadores da nossa imagem, em locais que nos asseguram o conforto necessário para o podermos ser – as redes.
E quando não produzimos, seguimos.
(Hoje em dia, trabalha-se exaustivamente o exterior e a sua transformação, deixando o interior à mercê da erosão pelo tempo).


Talvez estejamos a viver uma Era da indústria do culto da felicidade, a avaliar pela constante associação de produtos (vários) às fotografias, mostrando-nos como seriamos bem mais felizes se praticássemos o seu consumo. Este é o papel dos influenciadores de tendências, que tantas vezes caem profundamente na necessidade da partilha diária e recorrente desta falsa felicidade, aliada a uma estratégia de imagem. O tal querer parecer.


A felicidade são momentos que só geram um determinado estado de plenitude quando vividos realisticamente e desprevenidamente. Nunca quando nos preparamos previamente para eles.


Lido por aí: “ A Felicidade não se explica, não é palpável, mas sente-se. Entra e sai, nunca fica. É feita de um material cósmico, uma mistura de pozinhos de perlimpimpim com bocadinhos de arco-íris. Talvez também tenha um pedaço da Lua. Mas não é eterna. Não é total. Não é absoluta.”


Em suma e poeticamente falando:


Há um lugar sem nome
onde moramos, reféns
de um cognome que substitui
lugares antigos e que dilui, em si
e no tempo, as cores e os sabores
de uma identidade vivida
em fotografias antigas,
agora esquecidas, entre o pó
de objectos sem cheiro de amor.
Por temor de recuar no tempo
e voltar a bater à nossa própria porta
… sem ninguém para a abrir.


Somos lugares sem nome
a viver entre flashes
presos por um fio de redes
sociais e memórias instantâneas,
que depressa se esvai
p’lo buraco negro da solidão
que consome o sofá noturno.
Perdemos momentos,
ocultamos sentimentos,
desatentos à grandiosidade
do pequeno, à riqueza do detalhe
e à pureza do enamoramento da vida
que espreita à janela do coração.
Estendemos a mão,
rodamos a chave,
abrimos a porta,
mas não estamos lá…


Em nós, são tantas as ruas sem nome
que levam os outros a lugar nenhum!


 

9 comentários:

Robinson Kanes disse...

O Eduardo Sá deveria faltar menos às aulas e perder menos tempo nas televisões e não só :-)

Não são as redes sociais que são o problema (se é que ele existe), o problema somos nós! Nós é que embarcamos neste complexo e acabamos na oração do "smartphone", curvados e a teclar como se não houvesse amanhã e na esperança de não sermos esquecidos, ou melhor, de sermos notados, ou ainda melhor... de procurarmos dar um significado a uma vida vazia que levamos.

Este artigo roça um outro que escrevi "https://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/da-instamum-a-depressedmum-26687" - a felicidade fabricada por um acaba por ser a frustração de milhões, no entanto, é essa frustração que alimenta esta lógica. Além disso também podem funcionar de modo contrário, recordaste deste texto? https://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/e-se-as-redes-sociais-aumentarem-a-31271

No entanto, se as pessoas são felizes, pois bem que sejam, desde que não seja com o prejuízo de outrem. Não sou anti redes sociais nem similares, mas é importante discutir estes temas!

Esperava mais comentários dado o teor deste teu texto! Diz a experiência do meu espaço que, quando tocamos na ferida corremos o risco de ter poucos "adeptos" :-)

Rita PN disse...

Ahahahahaha. Gosto de alguns artigos dele. Com outros não concordo tanto. O artigo de onde retirei esta frase fez-me muito sentido (adolescentes, vícios e dependências).

Exatamente. Quando digo "Assim, não rotulemos as redes como produtores gratuitos da “falsa felicidade” quando, na verdade, elas são meros veículos condutores, ou se quisermos, grandes vitrines pensadas para a exibição de modelos diversos.", quero exatamente demonstrar que os "culpados" ou o "problema" somos nós. E não só relativamente às redes, mas ao excesso de tempo que estamos agarrados a um Smartphone, online.

Bem me recordo desses dois textos... Muito directos e certeiros. Dedo na ferida como tão bem sabes fazer.

Eu também não sou anti-redes, tanto que as utilizo. Questiono é a sua utilização em determinados casos. E questiono a sua influência na sociedade atual. E consequências, porque as há. Importa debater, sem dúvida. Que mais não seja para despertar mentes, fazer pensar e reflectir sobre comportamentos. Por onde estamos a ir?

"No entanto, se as pessoas são felizes, pois bem que sejam, desde que não seja com o prejuízo de outrem." - será que são? É complexo perceber, a este nível, quando é começa a ser ou não danoso para outrém. Existem violações de privacidade, utilização de imagem de terceiros, existem abusos, existem situações de invasão de "espaço" alheio, existe uma liberdade não controlada e, por vezes, um vale tudo, que pode interferir directamente com terceiros, com relações, com vínculos profissionais, etc.

No meu espaço esperaste comentários?! De todo não é um blog de massas. E talvez coloque vezes a mais o dedo na ferida, poeticamente falando. Aqui "obriga-se a pensar" e não tem um formato propriamente consumível. Não há muitos Robinson por aí :-) Quem aqui vem tem qualquer coisa de especial!

P. P. disse...

Artigo bem pertinente.

Robinson Kanes disse...

Não estou com isto a dizer mal do senhor... Nem é mau psicólogo embora defenda algumas coisas com as quais não concordo, mas quem sou eu...

As redes sociais colmatam também muitas falhas, sobretudo ao nível das emoções, auto-estima e vida própria... Um pouco como aqueles que trabalham 24h por dia porque não têm propriamente algo mais interessante para fazer...

É importante estudar-se esta questão, afinal não é uma continuação da vida lá fora? Se assim é que se estude, concordo perfeitamente. Além disso, redes sociais e não só tornam-nos (pensamos nós) visíveis, veja-se como os temas pululam consoante o impacte mediático, de repente, esta semana, toda a gente se lembrou de ter opinião sobre eutanásia... Mesmo aqui, basta a "tag" ter mais destaque e é tudo a ter opinião formada sobre temas em que muitos nunca pensaram sequer... E este é complexo. Contra mim falo, não falei da eutanásia mas já falei de outras temáticas... Acho que estamos na altura para debater o tema mas não para legislar como se a "vox populi" tivesse capacidade de pensar sobre isto em meia dúzia de dias e baseada em campanhas quase eleitoralistas. Não tem!

Mas é assim, andamos todos felizes de casaca negra :-)

Rita PN disse...

Não te preocupes que também não entendi desse modo. Logicamente existem sempre diferentes pontos de vista, também não concordo com tudo. Mas ainda vou concordando com algumas das suas perspectivas.

Aí é que reside uma boa parte da questão. No colmatar de lacunas, embora de forma totalmente fictícia. A virtualidade das emoções levá-la a viver num refugio ficcionado e não na realidade das coisas. Quem trabalha 24h (passe o exagero) fá-lo pela mesma razão, refugiar-se e tapar fendas que são reais. Ocupa-se, distrai-se e não dói tanto. Mas as lacunas continuam lá, por não ser essa a forma como se poderão resolver.

Sem dúvida que é um prolongamento da vida lá fora. Em certos casos a linha fronteiriça já é tão ténue, que uma vida e outra já se cruzam e misturam, por vezes...
Defendo o seu estudo na base do comportamento humano, emocional e reaccional. Estudo epidemiológicos também não me chocam nesta questão.

Inteiramente de acordo quando dizes que que as redes nos tornam visíveis e pontualmente um tanto ou quanto... importantes?
Todos temos uma janela aberta para o desabafo, para a opinião, para o debate, para a constatação, para o julgamento, etc e tal. Na verdade, a temática da ordem do dia passou também a ser a nossa. Hoje, todos sabem sobre tudo alguma coisa. Nomeadamente na linguagem que os média assim entendem transmitir. Na verdade, também há quem muito saiba de coisa nenhuma :) E especialistas nasceram centenas. Mas opiniões mais ou menos bem formadas sobre temas como a eutanásia vão continuar a ser uma realidade. Poder escrever duas ou três linhas sobre o tema do momento alimenta-nos o ego, expomos, logo não somos excluídos. (Eu escrevo sobre, logo existo). Ahahahahaha
Na verdade, é como dizes ninguém pode, com bases sólidas, formular opinião firme em meia dúzia de dias, ou nem tanto, sobre algo tão complexo como o é a eutanásia, sem nunca antes se ter demorado sobre isso cinco minutos.
(Viste a imagem da manifestação onde no cartaz se lê "por favor não matem os velhinhos"? Isso mostra a desinformação e a falta de filtro na informação que se apreende, ou não...).

Bom final, esse teu. Todos felizes de casca negra. Eu prefiro que a vejam dessa cor, quando assim está, do que fingi-la colorida.

Rita PN disse...

Verdade PP. Existem assuntos que merecem ser debatidos, falados, estudados. Obrigada pela leitura.

Robinson Kanes disse...

"Na verdade, também há quem muito saiba de coisa nenhuma :) E especialistas nasceram centenas. Mas opiniões mais ou menos bem formadas sobre temas como a eutanásia vão continuar a ser uma realidade. Poder escrever duas ou três linhas sobre o tema do momento alimenta-nos o ego, expomos, logo não somos excluídos. (Eu escrevo sobre, logo existo). Ahahahahaha "

Ou então escrevemos a verdade e somos excluídos ou apagados... Acontece muito disso, os algoritmos e muita da selecção que vemos por aí são feitos por pessoas, parece que às vezes nos esquecemos disso.

"Não matem os velhinhos" ? Não vi, e ainda bem, já vi que não perdi muita coisa de um debate que voltou a ser recheado de muita conversa mas de pouca reflexão.

Rita PN disse...

"Ou então escrevemos a verdade e somos excluídos ou apagados..." Hoje em dia não podes dizer a verdade. Tão pouco nua e crua, sem um ou outro adereço. O preto no branco. (Ups, também essas duas palavras parecem ter sido interditas). Se por um lado vale tudo, por outro não te é permitido nada.

Jean Jacques Rousseau, in "Do contrato Social" escreveu: "O homem nasceu livre e por toda a parte vive acorrentado. Um determinado indivíduo acredita-se senhor dos outros e não deixa de ser mais escravo do que eles."

E esta continua a ser a nossa tão atual realidade. Ou se preferires, relativamente à tua referência " os algoritmos e muita da selecção que vemos por aí são feitos por pessoas", e ainda da autoria do mesmo Rousseau: "Há um pequeno número de homens e mulheres que pensam por todos os outros, e para o qual todos os outros falam e agem."

Bom, na verdade o cartaz dizia "por favor não matem os velhinhos". Passou mas televisões, jornais, rodou pelos blogs... Envergado por jovens, mas reflectindo bem a falta de informação, de conhecimento e de fundamentos de uma grande parte da sociedade.
Voltando a Rousseau "O povo, por ele próprio, quer sempre o bem, mas, por ele próprio, nem sempre o conhece." Ou " Só se é curioso na proporção de quanto se é instruído."

Robinson Kanes disse...

Ai a Liberdade, esse conceito que não é assim tão linear :-)

Hoje as coisas não são tão apertadas como no tempo de Rousseau, pelo menos no mundo dito desenvolvido. No entanto, as verdades estão aí e bem actuais, afinal... "Sempre que há uma classe dominante, a moralidade do país resulta, em grande parte, dos interesses e do sentimento de superioridade dessa classe"... Só falaria no plural para completar esta afirmação de John Stuart Mill no seu "Sobre a Liberdade";-)

Esse é o espírito actual do hoje, da ideia de que somos imortais! Da ideia estúpida de que só a velhice antecede a morte... Enfim...

Hipoteticamente

Dista-nos um quarteirão de luar onde, na sombra, os detalhes se ensaiam, os elementos se vestem de harmonia e onde todas as ruas parecem reg...