terça-feira, 22 de maio de 2018

O Teu Sol

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O sol ainda nasce e se deita no mesmo horizonte, nos braços do mar. E ainda guarda a cor da vista daquela janela, que os meus olhos abriam para os teus.
Eras tu e o fim da tarde. Ganhavas tu, sempre que os dias se despediam num clarão de sol, que do teu sorriso se soltava.
O piar das gaivotas, a respiração salgada das gotas que o corpo da minha lembrança embala. Faltam-me as asas. Falta-me o céu como passaporte para rasgar o vento e pousar levemente no beiral noturno da tua janela. Anseio por voltar a casa, espaço meu no teu peito.
Do tempo do amor sem pressa, não ficou nada para além de nós, para além da vista de uma janela que nunca é a mesma quando o peito se abre. Diz-me, para quê fugir se não temos abrigo?
A campainha do apartamento que fomos permanece avariada, as chaves dos sonhos pousadas, o elevador da vida por concertar. E pelas escadas inacabadas, descalços, chegamos ao céu?
Não voltámos à janela, nem arrumámos a desorganização do espaço que o nosso amor ocupa. O caos, assim como o mar, não depende dos olhos de quem o vê, mas da extensão do amor que nos invade quando uma janela se abre.
O sol ainda nasce e se deita no mesmo leito, iluminando os magestosos jardins dos nossos planos.
... Onde estamos?


 

3 comentários:

Robinson Kanes disse...

Acredito que não esteja o melhor estado de espírito por aí... Mas pelo menos tem um bom reflexo na escrita ;-)

Rita PN disse...

Efetivamente. Mas existe sempre um lado bom em tudo, correcto? Neste caso, o nascimento de prosas e poemas. Sabes, eu não escrevo nada que não sinta, que não seja verdadeiro, que não me transpareça num ou noutro momento. Quando me lês, lês sempre reflexos meus, mais ou menos camuflados por metáforas, mais ou menos perceptíveis, mais ou menos actuais ou momentâneos. (Aproveitando para fazer um paralelismo com as redes sociais, se há coisa que não gosto nelas é a tendência para a partilha da falsa felicidade, do fútil, do aparente, do parecer bem, do corpo perfeito, roupa perfeita, sorriso perfeito, vidas que acordam perfeitas e se deitam perfeitas, sem problemas dos mais diversos fóruns, criando algum sentimento de "culpa" nos demais (aqueles que de alguma forma se deixam levar e não processam nem filtram o que é realidade, daquilo que não é), por não conseguirem atingir determinados patamares e plenitudes que aparentemente são de fácil acesso... Na verdade, esses, vivem na mentira diária. Saberão eles próprios quem são? Vivem? Cá fora, vivem? Sorriem? Acordam perfeitos? E adormecem no paraíso?
Somos seres humanos... e como tal somos fracos. Somos falíveis. Nem sempre somos felizes, tão pouco somos obrigados a sê-lo, não é imposição nem deviria ser estigma de aceitação. Sofremos, temos problemas, temos dias menos bons, acordamos despenteados e de cara inchada, deslavada, naturais?!
Pois... naquilo que escrevo sou eu mesma. No bom, no mau, no melhor e no pior. Se por vezes faço pensar, é porque também eu sinto essa necessidade, em mim e nos outros. Se por vezes é difícil processar o que escrevo, talvez seja porque as mesma questões não existem só em mim, mas também em quem me lê. Se o meu astral não é o melhor, porquê mascarar-me e escrever-me equivocamente? ... Pronto, já está Robinson. Já desabafei! )

Robinson Kanes disse...

Isso nota-se, claramente - quando for artificial, mesmo que muito bom, aviso :-)

"Somos seres humanos... e como tal somos fracos. Somos falíveis. Nem sempre somos felizes, tão pouco somos obrigados a sê-lo, não é imposição nem deviria ser estigma de aceitação. Sofremos, temos problemas, temos dias menos bons, acordamos despenteados e de cara inchada, deslavada, naturais?! "

E todos parecem ignorar, ou querer ignorar essa realidade. Acredito que seriam mais felizes.

Venham mais desabafos desses :-)

Hipoteticamente

Dista-nos um quarteirão de luar onde, na sombra, os detalhes se ensaiam, os elementos se vestem de harmonia e onde todas as ruas parecem reg...