
(Escrito em 2017 e republicado hoje, porque a História não se apaga nem se reescreve, de acordo com aquilo que se pretende - à data, por conveniência - que ela seja ou tenha sido. A História é o que é, é o que foi, é o que somos).
Ao longe, tiros e rebentamentos. A coluna onde eu seguia, já para lá da saída de Cufeu, pára. Pelo rádio, o oficial da Companhia que vinha ao nosso encontro solicitava ajuda à aviação. Haviam caído numa emboscada e estavam a ser dizimados pelo inimigo.
Foi o apelo mais dramático de que me recordo, durante toda a Guerra Colonial. O oficial apelava à aviação: que se bombardeasse tudo. Incluindo a Companhia. A situação tornara-se humanamente insustentável e o inimigo avançava em número bastante superior.
Quis Deus, que a aviação negasse o pedido. Perante terrenos minados e cheios de tantos outros obstáculos mortíferos, quaisquer quatro quilómetros se tornavam intransponíveis. Partir em socorro dos camaradas emboscados não passaria de miragem. Mas seguimos. Quem a bordo das viaturas se encontrava, saltou para o chão e a coluna avançou a bom ritmo, queríamos chegar a Guidage antes do anoitecer.
Um rebentamento. Dois rebentamentos. Três rebentamentos. Minas. Duas baixas irreconhecíveis e menos um pé. No local da emboscada mortos, mortos às dezenas. Menos trinta e uma vidas, das nossas.
À chegada a Guidaje, fomos presenteados com água, algum alimento e gritos. Tantos!! Mas estes de alegria. Disseram-me, porque já não os distinguia. Gritos de alegria, o que quer que isso fosse. Desses, só conheci os da tua mãe enquanto, no limite das suas forças, se esvaia em sangue cor de júbilo para te dar a conhecer a luz do dia.
Ali, o sangue era outro. Sangravam as nossas Colónias e cheirava a perecimento e as lágrimas, mais pesadas que todo o armamento. Lágrimas que sabiam a luto, ódio e potrefação.
Com a noite descemos às valas, que era onde se dormia, em Guidaje. E depois da morte, também.
Fomos bombardeados três vezes durante a madrugada. Rebentavam projeteis, vidas e os ouvidos de quem ainda se mantinha alerta. A nossa artilharia respondeu e parou o ataque. Fizemos a contagem, quatro vozes não responderam. Uma delas, a do jovem soldado Raimundo, meu companheiro e conterrâneo desde tenra idade. A sua voz nasceu e morreu comigo.
O nascer do dia descobriu o sol, que por sua vez iluminou os rostos de tristeza. Era preciso reagir.
Sabes João Pedro, a morte é como o amor, aprendemos a conviver com ela de perto, ou à distância. Só é necessário arranjar uma maneira de nos irmos iludindo.
Nas valas não se dorme. E quando se dorme é para sempre.
(Baseado em 3 testemunhos reais, relatados na primeira pessoa).
13 comentários:
E logo na Guiné, o pior teatro de guerra. O meu tio esteve lá também, felizmente voltou.
Sobre a Guiné, sempre me fascinaram os relatos contados na primeira pessoa. As histórias de sobrevivência e de superação. Lições de vida enormes. Realidades dolorosas é demasiado profundas, que graças a Deus não vivenciámos. Ver o tremer do olhar de quem as conta, faz-me querer entrar ainda mais dentro delas... tendo sempre o cuidado de não ir mais fundo do que devo, por receio de despertar algum fantasma adormecido.
Traumas de guerra inquietam-me. Mas a força dos relatos delicia-me... A capacidade de superação do ser humano é gigante, quando a mente não vacila.
Dormir com a morte ao lado... Matar... Ver morrer... três situações que para a maioria de nós, não são mais do que fraqueza.
Dou graças por todos aqueles, que tal como o teu tio, regressaram. Não fossem eles e a nossa história não seria a mesma.
Sim, foram jovens que tiveram de se transformar em heróis num curto espaço de tempo. Eu também gosto de ouvir essas histórias, nem que seja pelo valor que passo a atribuir ao país que me permitiu crescer sem ter de ir combater numa guerra anacrónica.
Boa Noite, Rita
É algo que me fascina. Deve ter sido uma época terrível...
Beijinhos
"nem que seja pelo valor que passo a atribuir ao país que me permitiu crescer sem ter de ir combater numa guerra anacrónica." Os meus parabéns por isso. Hoje em dia, poucos a pensar assim. Talvez por ignorância de parte da história do próprio país e de tempos vividos pelos seus avós.
Um beijinho Francisco
Foi sem dúvida Ana. As emoções que nos são passadas à medida que um ex-combatente nos relata a sua experiência, têm um peso enorme... Ao fim de tantos anos. São experiências traumáticas.
Ainda ontem, um cliente ao contar-me um episódio de guerra, chorou... E diz que sonha muitas noites com. A guerra. Afirma que nunca mais voltou a ser o rapaz que era antes da guerra.
São heróis. Não fossem eles e hoje, a nossa história não seria a mesma.
Uma beijoca
Arrepiante e magnifico
"Mãe", muito obrigada pelas palavras e pela leitura!
Um grande beijinho
Conheci e conheço muitos soldados e "tenho" também muitas histórias… infelizmente ainda são esquecidos e enviados para um canto da nossa memória. País que não valoriza aqueles que morreram pela sua pátria, tem que repensar muito a sua própria existência.
Bom artigo! Muito bom, mesmo!
Eu tenho amigos atualmente na tropa. Tenho familiares que estiveram no Ultramar, assim como clientes de idade mais avançada com quem adoro conversar sobre esta temática. Delicio-me com as histórias. Talvez por ser uma realidade tão distante da realidade atual... ao mesmo tempo que não deixa de lhe pertencer, porque muitos deles Homens ainda a carregam consigo diariamente.
Julgo ser uma época que caiu no esquecimento de muitos portugueses e, por consequência, nem chegou a estar presente na mente e conhecimento dos mais novos. Fala-se por alto nas escolas e na comunicação social pela altura do 25 de Abril, voltando a esquecer-se nos dias seguintes.
Julgo que a sociedade atual, não tem a verdadeira noção do quão importantes foram os anos entre 1961 e 1974 para a história do nosso país (e para a sua própria história, ao fim ao cabo).
Não vejo valorizarem-se tanto os ex-combatentes, como se valorizam figuras publicas e jogadores de futebol... (ok Rita, não entres por aí). Vejo tanta ignorância, desinteresse e desvalorização que me até a mim me dói... o coração português... e não estive lá... não lutei, não sofri e não morri pelo meu país. (A bem dizer, até ao dia de hoje, pouco ou nada fiz pelo meu país a não ser trabalhar e tentar abrir mentes através da minha escrita).
Tudo para dar razão às tuas palavras, Robinson .
No que depender de mim, estas histórias não morrerão. Estou a fazer a devida recolha para dar vida a algo mais.
Muito obrigada mesmo pelo teu comentário!
Obrigado eu, serei acompanhante assíduo…
E podes ir por aí… porque quem combate numa guerra não aparece na televisão e quando aparece… por norma está fechado num saco ou num caixão.
Olá Rita! Sou o Edgar Tomé e sou escritor de contos e poemas. Gostei do relato baseado nos três testemunhos reais. Intenso e devastador o efeito da guerra nos homens e mulheres que nela participam.
Lê o meu conto diário de campanha é ficção mas bem poderia ter acontecido. Dá atenção às nuances. Bem haja, Edgar Tomé
Olá Edgar. Em primeiro lugar obrigado pela visita e leitura. Em segundo, grata pelas palavras de apreço. Fui ler (não só esse diario, mas também a poesia de que gostei). Curioso, encontrei referências a outros dois artigos que escrevi sobre o tema, sempre baseados nos mesmos testemunhos. Há sempre um feixe de realidade por trás da ficção. É o caso do teu diário de campanha.
Deixo os links dos outros dois, onde conseguirás perceber a que episódios me refiro.
Bem haja!
https://contame-historias.blogs.sapo.pt/fomes-23109
https://contame-historias.blogs.sapo.pt/um-alfaiate-nao-cose-vidas-24312
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