terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

A crise e os Millennials: Não somos os filhos do azar

[Republicação]


Muito tem sido falado e discutido, nos últimos anos, sobre os Millennials (ou geração Y), nascidos nos anos 80 e 90. Uma geração que veio ao mundo já com a tecnologia no terreno, embora incipiente - e que cresceu de mãos dadas com o seu boom de desenvolvimento. A Internet permitiu-lhes a globalização, sendo - os Y - caracterizados por ela. Muito mais abertos à aquisição de conhecimentos e partilha de experiências, foram os impulsionadores de diversas mudanças de paradigma, desde logo ao nível da consciência social e do desenvolvimento de relações, ao nível comportamental, passando pelas causas ambientais e entrando em campos como  o consumo e a forma de consumir, a visão empresarial, o mercado de emprego, o turismo, a habitação e a aprendizagem.


São uma geração, na sua maioria, muito mais capacitada e qualificada do que a anterior, com um sem fim de possibilidades e oportunidades para vingar, mas que "por azar" - como tem sido escrito em variadíssimos artigos - enfrenta agora uma segunda crise económica no espaço de doze anos. "É inédito" - outra das expressões que muito se encontra -. É, de facto, inédito, mas também comprometedor. É inédito e desolador. É inédito e, "por azar" apanhou os mesmos, quando finalmente estavam a conseguir equilibrar-se num casco desgastado e fino, depois do confronto com uma longa tempestade que lhe toldou sonhos, metas e projectos de vida.


[A nossa voz]


2008 não ficou para a história. 2008 imortalizou-se na identidade de cada um de nós, nas nossas feridas e desesperos, na amputação do futuro, na reinvenção constante que nos foi sendo imposta e dal que fomos capazes, nas lágrimas dos nossos pais (ao verem cair por terra muito do que haviam ambicionado e construído para nós, através dos seus esforços e lutas).


Nós, os Millennials, somos uma geração fadada para a reinvenção, para os desafios e para a inovação, graças ao engenho e à arte de nos desdobrarmos sistemáticamente. Porém, é nosso o fado da "geração à rasca" - ou "rasca" como também nos designaram - que se viu a braços com a era dos recibos verdes, do desemprego jovem, da precariedade de trabalho, auferindo salários substancialmente mais baixos do que a anterior geração (para as mesmas funções). Uma geração sem horários e escrava do medo de não corresponder ao que é esperado por parte do empregador, embora consciente de que 6 meses de vínculo não lhe garantem fixação. Uma geração que conhece o sabor amargo da falsa independência e dos obstáculos, quantas vezes intransponíveis, que se lhes colocam a cada nova tentativa de conquista da independência, por exemplo, na aquisição de habitação. (Se há os acomodados, há os que aos 30 anos ainda não reunem garantias essênciais para abandonar a casa dos pais, seja por falta de condições económicas e profissionais para contrair crédito, seja pelo preço crescente da habitação, ou pelos valores praticados no mercado de arrendamento).
Diz-se, frequentemente, que não colocam alma e risco naquilo que fazem e que se propõem fazer, sendo esquecidas todas as marcas que trazem, todos os tombos, todas as nódoas negras ainda visíveis e todo o receio que os domina, fruto de vivências dolorosas. Diz-se que planeiam demasiado, que não arriscam sem ponderar excessivamente, que vivem o seu presente com restrições que lhes impedem o salto... mas, e todas as quedas, faltas, carências, dificuldades vividas, cujas marcas permanecem?


Foi violento o nosso começo de vida e violento serão os próximos tempos. Se há estudos que afirmam que são precisos dez anos para superar os efeitos nefastos de uma crise, "por azar" iremos precisar de vinte, ou não estejamos a falar de duas crises extremamente violentas num curto espaço de tempo. Vinte anos de uma guerra interior e sofrida, de aflição e momentos de dúvida e privação, vinte anos de dependência de outros (hajam pais), vinte anos de incerteza, de quedas consecutivas, de precariedade, desemprego, fome, de vida adiada de futuro hipotecado. Vinte anos...


"É inédito" e não somos "rascas", tão pouco filhos do "azar". Somos a geração que nasceu da mudança e para a mudança, onde habitam sonhos, horizontes, desejos e metas... novamente comprometidos.


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8 comentários:

amorlíquido disse...

Os Millenials assim como, atrevo-me a dizer, a geração Z pertencem, de facto, a um nível de qualificação e especificação que vai muito além daquilo que os seus pais conseguiram ou os avós sonharam alcançar. Há cada vez mais meios, mais ferramentas, mas também há uma pressão constante de dar mais, de fazer mais, de ser melhor. E aqui, em meu entender, surge um erro. Estas gerações não são estimuladas a dar tudo de si, a superarem-se por propósito próprio, senão pela competição e preocupação em ir mais além que o vizinho do lado. Porque a oferta não acompanha a procura e onde existem 3 oportunidades de trabalho para 100 candidatos, 97 ficarão pelo caminho, questionando a sua relevância enquanto profissionais e enquanto pessoas. Outro erro.
Estes jovens focam-se no que obtêm materialmente e fazem disso a definição da sua pessoa. Nunca a humildade esteve tão ausente. Julgam os outros pelo que têm, pelo que tiveram acesso, pelos recursos de que dispõem para se destacarem dos demais. Estes são os que atravessaram a ponte. Porque são muitos os que sim continuam em casa dos pais, não por não se conseguirem sustentar, mas porque não estão para se chatear, porque trabalhar exige esforço, dedicação e responsabilidade.
São gerações muito dicotómicas, ou vale tudo ou não vale nada, ou é preto ou é branco. Perdeu-se o equilíbrio, o pensar antes de falar, o respirar antes de agir. A tranquilidade ficou pelo caminho.
Não quero ser injusta. Acredito que existam muitas valiosas exceções, mas domina o interesse no "ter" mais do que no "ser". A pressa é muita, a urgência é tanta que faltou tempo para se serem. Por isso, são das gerações mais ansiosas, com índices mais elevados de depressão. O mundo exige demasiado deles e as ferramentas que se constroem para lidar com a expectativa receosa do futuro, o recalcamento do passado menos resolvido, as armas que fariam frente reativa às situações de crise vividas, pessoal e profissionalmente, não estão lá.
Vive-se à distância do outro, um outro que ora não querem compreender, ora tentam ultrapassar a todo o custo. Uma rede que deveria ser coesa, servindo de base às quedas mais dolorosas e que se depara com espaços vazios.
Crises sempre existiram e sempre serão uma realidade. Há exemplos disso nas famílias de todos nós. Acho que tens razão no que diz respeito ao comprometimento das metas, dos objetivos traçados, mas mais que nunca são todos eles que levam na bagagem formas de dar a volta. E se não dá para atravessar a ponte em linha recta, faz-se uma jangada e atravessa-se o rio. E perante a escassez de material, dá-se o corpo às balas e vai-se a nado mesmo. Dá mais trabalho, sim. Demora mais tempo, também. Mas faz parte da luta de estar vivo. Temo que muitos faltaram a essas aulas. A da importância de observar antes de fingir que se sabe, a de perceber que o sucesso é uma finalidade e
não um filtro para fazer triagem daqueles com quem se querem dar.
Às vezes é importante sacudir a areia, sentir a espuma das ondas molhar os pés, avançar lentamente antes do corpo congelar. Nem toda a onda chega ao lugar onde estávamos sentados e, nem por isso significa que não haja no oceano outras múltiplas oportunidades.

Rita PN disse...

Em parte concordo com a análise, por outro lado são palavras que a mim, pessoalmente, me ferem... pela generalização que não me serve. É muito por generalizações do género que, quem é diferente, também não vinga, porque somos pistos no mesmo saco.
Para dar um exemplo, trabalho desde os 18 para me poder sustentar, trabalhei durante 3 anos sem um único dia de férias, estudava e trabalhava e nunca ousei uma falta aos meus compromissos profissionais. Dei o corpo às balas com marcas bem visíveis e cai muitas, muitas vezes sempre que o relógio voltava a parar.
Fui evoluindo e ganhando outras responsabilidades. Sem vergonha de o dizer, supervisionei 4 lojas aos 24 anos, com um salário de 450€ a trabalhar 9h por dia. Porquê? Porque previsava de trabalhar e de crescer. Precisei da experiência e aceitei. Se não fosse eu, seria algum dos restantes 99.
Aos 29 agarrei a oportunidade de experienciar a oportunidade da gerência e liderança de uma equipa, com um vencimento igual ao de auferia quando era sales assistant há 10 anos atrás. Mais uma vez, se não fosse eu, seria um dos representantes 99.
Trabalho muitos dias 12h, abdico de folgas e coloco o trabalho à frente da minha própria vida, porque quero assegurar a minha independência. Abdico da minha liberdade e do lazer, mas pago a minha renda.
Se é verdade que somos mais propícios à depressão, é. Basta analisar o que acabei de escrever e é perfeitamente compreensível que assim aconteça.
Passei fome, troquei as lâmpadas por velas e não desisti, mas cansei e cai. Levantei-me e aos Tombos continuei. Eu e muitos.
Pelo que muitos dos comentários que oiço a respeito da minha geração são como punhais.
Apelando à reflexão, escreveu que "O mundo exige demasiado deles". Não será contraditório? O mesmo mundo que os critica exigir a essa escala?
Temos medo. Sim, temos medo de cair sem nos podermos levantar. E sucumbimos a todas as exigências com salários vergonhosos, por termos presente que 20 é melhor do que nada.
Materialistas existem em todas as gerações, não somos mais do que outros, nascemos foi noutro tempo onde talvez seja mais evidente, já que as próprias sociedades foram programadas para o consumo (Assim foi previsto no "Admirável Mundo Novo" na década de 40). Sabemos que é o consumo quem alavanca a economia, não somos nós quem determinou que assim fosse, apenas nascemos nessa e com essa nova realidade.
Contudo, seria interessante avaliar e comparar o consumo da nossa geração com a da anterior, no presente. Será surpreendente. Os produtos serão diferentes, mas os rácios talvez tragam uma visão diferente. Nós não temos poder de compra. E compramos subretudo experiências. Esse é o nosso ADN (seja musica, sejam viagens, seja gastronomia, seja hotelaria, sejam desportos, seja um carro, seja aquilo que for).

Um início de vida violento que não terá bonança, aos 40 já não recuperamos coisa nenhuma. Essa será a idade com que os 30's sairão desta nova crise.

amorlíquido disse...

Rita, eu não quis generalizar ao ponto de ferir quem não se identifica como pertencente ao "saco" em que talvez coloquei. Não foi essa a minha intenção. Como eu disse, e repito, existem exceções. Pessoas que dão o litro, que trabalham e estudam ao mesmo tempo, que se desdobram para estar em 1001 partes ao mesmo tempo, muitas vezes porque só assim podem sobreviver. Tenho consciência disso e sinto o maior respeito por essas pessoas, pela garra, pela entrega que os move. Essas pessoas, tarde ou cedo, chegarão (muito) longe.
Eu não quis magoar com as minhas palavras. Por azar meu, a Rita é o oposto daquilo que eu referi. Mas olho à minha volta e tenho noção de que embora as pessoas, em termos de competências, estejam cada vez mais bem preparadas e sejam indiscutivelmente mais ambiciosas, também muitas delas se tornam arrogantes pelo estatuto que tão vertiginosamente alcançaram, pelos diversos diplomas que detêm e como se eles os definissem em todos os quadrantes da vida.
Desculpe, honestamente, se a magoei.

Rita PN disse...

Desculpas aceites.
Acredite que não é fácil para quem leva uma vivência sofrível, ser permanente colocada num saco comum. É uma realidade que os egos existem, que as mentalidades rasas também, em todas as gerações as há. Esta geração também foi moldada pela protecção excessiva dos pais, muito pelas dificuldades que se enfretam e, sabemos, denasuada protecção gera indivíduos não só excessivamente dependentes de rudo o que lhes colmate faltas, como gera a necessidade de imposição diminuindo outros.
Pessoalmente entristece-me essa atitude, porque não creio que 3 diplomas tornem alguém melhor do que outro. A experiência sim, o carácter sim, a disponibilidade, a humildade e a entrega, a capacidade de reinvenção e de resiliência, a criatividade, a forma de estar no mundo. Existem ferramentas inatas que um diploma não poderá atribuir a ninguém, porventura, permitirá o seu desenvolvimento.
Mas... nesses pontos talvez se deva questionar a educação e não a geração. Somos também o resultado dela. Deveremos só criticar os jovens ou também colocar em dúvida os seus pais e tutores?
O que é certo é que levaremos 20 anos numa luta ininterrupta e profundamente marcante. Diz-se que é necessário dar passos atrás para que seja possível andar para frente. Talvez sejamos nós o sacrifício necessário à bonança dos que virão a seguir. Poderíamos marcar positivamente a história, mas creio que ficaremos na história como uma geração aquém, vítima do "azar".

Finalizo um dos meus poemas com o seguinte verso "o sonho é sempre maior do que a sorte". Assim me vou...

Um beijinho e obrigado por trazer sempre ensinamentos e reflexões a este mundo dos blogs. O seu blog está no topo das minhas preferências. De verdade

cheia disse...

Uma geração a prazo, sem poder planear nada, porque precariedade não o permite. Sem dúvida, mereciam melhor!

Rita PN disse...

Amigo, não está fácil... A luta manter-se-á, a fé e os sonhos também. Façamos o melhor que nos for possível.
Muito Obrigado pela leitura e receba um abraço!

amorlíquido disse...

Perante o que escreveu, não tenho como não lhe dar razão.
Agradeço as palavras e retribuo! Eu também passo por cá todos os dias.
É um gosto lê-la e refletir com as suas publicações

Rita PN disse...

Um grande obrigado e um grande beijinho

(ps: não revi o comentário, e só agora dei pelos erros... Escritas automáticas nos telemóveis têm disto. Peço-lhe desculpa por isso).

Hipoteticamente

Dista-nos um quarteirão de luar onde, na sombra, os detalhes se ensaiam, os elementos se vestem de harmonia e onde todas as ruas parecem reg...