segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Lembranças: um rasgo de tinta e flores

Uma lembrança cai da estante sobre a minha mão e penetra-me a carne macia, onde ainda se entranha e remexe, se aprofunda e permanece junto ao coração.
Como castelo de cartas ao vento, assim me sinto, assim me voo – em asas de memórias inadequadas ao sossego. O som estanca e do ventre de um movimento suspenso paira o momento sobre si, permanecendo muito mais do que ele próprio. O tempo não é corrigido e eu, deformada nas dobras das horas, dos dias e das lembranças, eternizo-o. Suspenso no silêncio que inerte se faz marcha rumo a mim.
Quando a alma se deita sobre a cama de núpcias do mutismo, o mundo está cheio de mais para falar…
Cais-me, memória a memória, da estante onde me propus guardar-te. Sem nome, sem rosto, nem formas, só verso a verso: a poesia que em ti eu li --  do mar ao abismo, da flor ao tormento, do amor ao lamento.
Perco-te o mundo ao adormecer, mas ganho-me em Universo.
Resta-me que amanheça. Essa é a hora em que tudo é puro e translúcido, é a hora em que apenas a luz se move e nos reacende.

Um rasgo de tinta e flores.

As memórias são inadequadas ao sossego. 

10 comentários:

fashion disse...

Lindo!!!

Rita PN disse...

Muito obrigada, querida Fashion Que seja um dia doce para ti.

HD disse...

O mundo está realmente demasiado cheio para falar, para sentir e recordar...

Rita PN disse...

Está mesmo... infelizmente. Transbordo eu, por sentir e recordar...

HD disse...

Algum desse transbordo vai parar a bom porto... :-)

Rita PN disse...

Irá? Não sei se existirá porto capaz de receber o que em minha alma vai...

Lost disse...

Que em cada amanhecer só se levantem as boas recordações, e que a luz permaneça todo o dia, de forma serena e leve.:)

Rita PN disse...

As boas também deixam aquela saudade que magoa... a nostalgia dos sonhos inacabados...

Lost disse...

Sei... Mas essa nostalgia trás a vontade de continuar um sonho ..

Rita PN disse...

Essa é a questão que é necessário bloquear... há sonhos aos quais não podemos/devemos regressar.

Hipoteticamente

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