Recomeço.
Não tenho outra estrada.
Lúgubre, a noite apressada
evoca-me o predestinado ofício.
Recomeço.
O lodo na pele,
sou estrume e fel.
sombra, penumbra, ataraxia;
bolor nos passos,
tropeços e compassos mudos...
Lua tardia.
Recomeço.
De horas ausente,
tarda o ponteiro
a norte.
Negligente, a sorte
que trago nas palavras vãs.
Recomeço.
Indolente e farto, o caminho
destino visinho
da podridão dos sonhos
que me arrasta...
desgasta...
devasta...
Recomeço.
R ...
eco
meço.
3 comentários:
Interessante como somos. Como nos comportamos.
Há algo na forma de pensarmos que nos limita o movimento (a ação), mas, ao contrário do que deveria fazer, transforma a mente num furacão.
O conforto só existe mentalmente, pois lá a vida corre como queríamos, mas aqui, no verdadeiro mundo, somos apenas um frame de toda a imensidade de movimentos que ambicionamos ser.
Então queremos sempre um recomeço, mas mesmo que esse seja bem sucedido, passamos apenas ao frame seguinte.
Somos refletores do nosso ser, mas nunca nós em completo; quase como a capa de um livro, sendo que o interior está escondido até de nós.
Gostei muito do poema; a imagem de recomeçar no mesmo erro, de não conseguir escolher outra saída até porque essa é outra prisão...
Um beijinho
Francisco, que bom ler aqui esse teu comentário! Tão certeiro, tão bem fundamentado, tão bem arrancado a este meu poema. Não te Altero uma palavra. Gosto imenso da forma como expões o que pensas e a forma como olhas e sentes o que nos rodeia. O teu espaço, aqui nos blogs, já é uma paragem obrigatória e, permite-me um elogio, sou sempre obrigada a ler cada post mais do que uma vez, por forma a garantir que não me escapam os detalhes mais escondidos. Claro, segundo a minha interpretação. É muito bom quando um texto nos preta quer a mente, quer a alma e os sentidos. E tu consegues isso.
Obrigada por vires aqui enriquecer este cantinho.
E que possa existir sempre um recomeço em nós. "Nada se perde, tudo se transforma" ou "É do cais que nascem as estrelas".
Um beijinho
Fiquei sem saber o que dizer
Sou muito amador em relação à escrita, (para bem dizer, nunca fui grande aluno a português). Mas faço das palavras coisas, não minhas, mas delas mesmo, e deixo-as deambularem por aí, cuidadas e sentidas.
Fiquei mais sentido nestas tuas palavras que em muitos textos que escrevi, porque esses aparecem, não lhes controlo, nem o tema nem a mensagem. Mas o de outrem, são palavras que não são nossas, que não as controlamos e apenas pensamos o que poderia vir nelas; e nas tuas veio algo que não esperava alguém me dizer. É por isto que escrevo, para ouvir mais do que alcanço, para chegar mais longe... E apesar de ainda escrever muito para mim, começam as minhas palavras a serem de mais pessoas, e assim completo-me mais, escrevo mais!
Muito obrigado, a sério. Dizer que não sou merecedor de tais palavras não me cabe a mim, pois eu sou o meu pior inimigo e pouco de bom viria nelas, mas muito obrigado por mostrares outro lado, um lado que apesar de escondido, sei que existe!
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