segunda-feira, 20 de março de 2017

Xeque-Mate

oie_4164049NG9BvYGA.jpg


 


Sem precisão temporal – a guerra roubou-lhe o significado do tempo, contou-me uma noite, depois de dar por terminada a mais longa partida de xadrez. Não dormiu durante vinte e sete horas. Ciente da sua capacidade de superação e de resposta ao imprevisto, fez xeque-mate ao rei adversário. Não se deixava surpreender, jogava o seu jogo e o jogo do seu opositor, mantendo a concentração e alterando a estratégia sempre que o adversário julgava tê-lo surpreendido. Venceu pela persistência. 
"Esta é uma lição que deverás levar para a vida, João Pedro", dizia-lhe o avô, retornando às memórias da Guerra Colonial.



Sem precisão temporal, durante uma acção de reconhecimento aéreo, foi localizada uma base do inimigo, camuflada no interior do mato. Base essa, que as forças terrestres especializadas tomariam de assalto durante a madrugada seguinte. A aproximação dos homens requeria especial atenção e precaução, não só pelas condições do terreno, demasiado acidentado, como pela existência de populações nas proximidades. Qualquer falha alertaria o inimigo e consequentemente, ditaria a sentença de morte para muitos de nós.
Após de uma análise detalhada da missão, oCcomandante da Companhia ordenou que se formassem quatro grupos. Um primeiro grupo, composto por vinte e cinco homens, saltaria de helicóptero sobre o alvo – a base  – enquanto o segundo e terceiro grupos montariam emboscadas nas zonas de acesso. Iria ser mantido como reserva um quarto grupo, que atuaria como reforço, ou entreveria numa eventual perseguição às tropas do inimigo.
Já a noite caíra quando o segundo e terceiro grupos saíram, em silêncio, para uma marcha de seis horas – segundo regitou o alferes Morais, porque como te disse meu neto, a guerra roubou-me o significado do tempo. Hoje, ao olhar para trás e ao relembrar as histórias que te conto, não sei se elas duraram um minuto ou um ano. Na altura, sei-o, foram o que vivi de mais semelhante com a eternidade. Esse espaço intemporal e infinito que só se conhece após a morte. E não foi isso que eu vivi? A morte? Também matei e vi matar, naquele cenário de horror e carnificina. - O segundo grupo posicionou-se perto da base e o terceiro permaneceu na periferia do rio.

Não houve qualquer sinal de alerta por parte do inimigo, nem das populações, mas era importante manter a descrição, atenção e concentração, a fim de evitar qualquer contacto até os homens do primeiro grupo realizarem o assalto - como numa partida de xadrez. É crucial certificares-te de que o teu oponente não te decifra antecipadamente. Qualquer palavra, gesto, trejeito ou olhar podem fornecer-lhe indicações sobre o teu pensamento estratégico, ou deixar clara a movimentação da tua próxima jogada. Nunca se sabe de que capacidades estão os outros dotados. Quer no jogo, na guerra ou na vida, a aptidão e prontidão para uma rápida resposta é o segredo. A morte já não me surpreende, mas a surpresa poder-me-á levar à morte.

Os comandantes da companhia ordenaram aos camaradas que iriam constituir o anel de cerco, que se dispusessem em posição de emboscada, em grupos organizados de cinco elementos, de rádios ligados e em escuta permanente. Aguardariam pelo início da operação, em silêncio e imóveis. Eu estava entre eles.
Ao amanhecer cacimbava, o que dificultou a descolagem dos helicópteros.
Voavam a baixa altitude e assim que o alvo foi localizado, na orla da mata, o capitão saltou. Os restantes vinte e quatro soldados seguiram-no, num salto contra o tempo. De imediato o grupo de vinte e cinco homens, já reunido em solo firme, levou a cabo o assalto.
Seguiram-se tiros, gritos e vultos a correr. Granadas e corpos caídos. Ordens, ordens e mais tiros, tiros, tiros e tiros. Sobraram os mortos, os nossos militares feridos e algumas das gentes que por ali viviam.
Ouvi novamente o barulho ensurdecedor das pás e das turbinas dos helicópteros sob escolta de um helicanhão. Evacuaram as tropas, recolheram os feridos e abandonaram o local.


Seguiu-se uma nova caminhada de seis horas de regresso à base – e essa foi a duração da eternidade para o alferes Morais que caiu, sem vida, a dez passos do nosso aquartelamento.


[ Baseado em factos históricos verídicos - Guerral Colonial 1961-1974]

9 comentários:

Robinson Kanes disse...

Fantástico testemunho. Aqui vou seguindo com muito mas muito interesse!

Rita PN disse...

Muito obrigada Robinson :-) É bom ter-te como leitor deste cantinho.

Tudo real excepto a história do xadrez. Nenhum dos ex-combatentes com quem falei joga xadrez.
Porém, nem seria eu se não introduzisse outra história na História!

Estou a ter uma extrema dificuldade em obter documentação de relatos da época. O que cada vez mais me confirma que o silêncio que se instalou em torno da Guerra Colonial, a tem vindo a apagar aos poucos...

Robinson Kanes disse...

Fazes muito bem em relatar com um pouco de "estória"… quem sabe possa nascer um romance desta compilação de factos. Já tentaste a Liga dos Combatentes?

Rita PN disse...

A minha ideia era exatamente essa, conseguir bons relatos e a construção de um bom enredo em torno dos mesmos. A ver vamos com corre.

Sim, já consegui alguma documentação mesmo através do site. Existe uma delegação em Beja. Os meus horários ainda não me permitiram lá ir, mas irei assim que possível. Quem sabe se conseguirei mais relatos na primeira pessoa. (É um assunto delicado para estes homens, falar significa remexer em fantasmas do passado que, muitos deles, ainda tentam enterrar. Quando lhes vejo as lágrimas nos olhos, sinto que já fiz daquele dia um dia mau... A minha curiosidade não tem o direito de ser egoísta e saciar-se com o conteúdo das lágrimas alheias. É complicado...)

Robinson Kanes disse...

Podes sempre fazer o relato "ipsis verbis" e no fim dedicar o trabalho a todos eles. Talvez as lágrimas lhes possam fazer bem… o problema de muitos deles é não falarem efectivamente.

Eu estou a adorar, com um misto de curiosidade e tristeza.

Rita PN disse...

A ser concluído em livro, essa dedicatória será feita, efetivamente. Nem de outra forma faria sentido! :-)

Sim... guardar os fantasmas apenas para si não é de todo benéfico. Muitos são incompreendidos nos comportamentos que desenvolvem, são por noma pessoas distantes, reservadas, severas, desconfiadas, sós consigo mesmas e apelidadas de frias. Mas lá está... remexer no passado é sempre complicado, ainda para mais quando não se tem apoio e conforto nos momentos seguintes.

Muito, muito obrigada pelas palavras Robinson. Dão-me alento para continuar. Acredita que não há muita gente que partilhe do teu interesse. É mais fácil ignorar os factos.

Robinson Kanes disse...

Eu é que agradeço. Além disso não sou pessoa de enterrar a cabeça na areia :-)

José Fonseca disse...

Se me permite a sugestão, fale com Paulo Abreu Lima (facebook). Foi no seu mural que em boa hora a "conheci". Fez a guerra nos tempos finais (comandos). E é completamente diferente do retrato que faz da maioria. É divertido, bem humorado e um fantástico contador de histórias.

É fascinante este seu trabalho. A sugestão de romance tem pleno sentido. Mas essa opção não tem de excluir a outra, a da crónica, da reportagem, do nome verdadeiro do soldado, do facto real, da coordenada concreta, do rio que por ali passa. O bom jornalismo pode, sem deixar de sê-lo, ascender à literatura, a esse tempo (diverso) da arte. Duas vias pode pois ir construindo em paralelo. E é notório que vai gostar muito de as percorrer a ambas. E eu de assistir a tudo...

Rita PN disse...

Já expressei essa minha vontade ao Paulo! Serei toda ouvidos, assim ele esteja aberto às exposição das suas histórias! Sei que as conta como ninguém, ele e a esposa são amigos da minha mãe há muito tempo. E eu da Mariana.

A minha formação em jornalismo não é nenhuma. Tenho feito a investigação por mim mesma exatmente por partilhar da sua opinião " O bom jornalismo pode, sem deixar de sê-lo, ascender à literatura, a esse tempo (diverso) da arte. " e por querer não fugir à realidade. A intensão será relatar o verídico através de uma personagem fictícia. Um ex-combatente que escreveu, já após o seu regresso, cartas ao neto, onde relata a verdade dos factos, ao mesmo tempo que lhe transmite determinadas lições de vida. Cartas que só serão encontradas anos mais tarde, debaixo do colchão que lhe sentiu o peso da vida.
Assim eu consiga levar avante esta investigação e posterior redação, de forma a que o produto final me satisfaça.

Hipoteticamente

Dista-nos um quarteirão de luar onde, na sombra, os detalhes se ensaiam, os elementos se vestem de harmonia e onde todas as ruas parecem reg...