Como mortalha que avança e cobre a noite,
assim se estendem as ruas manuscritas do meu peito,
pelo rubro dos teus passos ausentes.
Tu que persentes quando me atraso ou adianto,
e à esquina do meu pensar, por espanto,
te insurges indecifravelmente só…
Onde estás?
Ardem até ao fim, as velas breves dos sinais, e o céu,
por estrelas rejeitado, não aclama por nós.
Invariavelmente sós, os teus olhos já não vêem
nos meus a ternura dos silêncios conjugados.
Calaram-se os sonhos, o carinho, o amor e a corrente de gente
que nos arrasta e desgasta, em pontas opostas de um mesmo laço,
pelo desalento do mundo.
Onde está o teu abraço?
Reconheço-te nas pedras do caminho
a sombra da dilação;
a luz confundiu a aurora do teu coração cego
e sedento de alma. Basta-te nela, o toque frágil.
Sobrando-te, agora, o doloroso tacto da ausência.
Se a penumbra é carência,
acende-me outra vez!
E afirmarei, no fim, a quem me quiser ouvir,
a quem me quiser escutar, sentir ou admoestar
sobre razões que o meu coração desconhece:
- É preciso que o amor baste!
Acende-me outra vez!
O meu olhar é nítido como um girassol Tenho o costume de andar pelas estradas Olhando pra direita e para a esquerda, E de vez em quando olhando para trás... E o que vejo a cada momento É aquilo que nunca antes eu tinha visto, E eu sei dar por isso muito bem... Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança, se ao nascer, Reparasse que nascera deveras... Sinto-me nascido a cada momento Para a eterna novidade do Mundo... (Alberto Caeiro)
terça-feira, 11 de setembro de 2018
Nas ruas manuscritas do meu peito
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9 comentários:
«Tu que persentes quando me atraso ou adianto,
e à esquina do meu pensar, por espanto,
te insurges indecifravelmente só…»
Vejo controlo... Na forma como descreves o outro lado. Tu, que te chegas tão perto e tanto dás de ti: Mas a quem te vê os passos, e apenas usa-te para aprender a dar os seus... Um amor condicional, um favor egoísta em troca de um amor puro... E de tão puro que o foi, não se viu corromper enquanto luz havia.
Amavas pelos dois, davas tudo de ti, e recebias um brilho... aquele que tu mesmo fazias...
«Ardem até ao fim, as velas breves dos sinais, e o céu,
por estrelas rejeitado, não aclama por nós.»
O céu, quando partilhado, as estrelas só emitem o seu brilho quando ambos os lados a fazem brilhar... Por mais brilho que um faça, é apenas no interior. Para essa luz ser visível que alguém faça esse interior correspondido/compreendido... Pois amor que não se tem, apenas se sente... Assim como a luz que sabe-se que lá está, sem olhos para a ver. Assim não há luz. Assim não há amor...
Desculpa Rita, pela mensagem tão negra, mas a tua saudade transmitiu-me isto mesmo... Não repitas, sabes o seu desfecho...
Não tens nada que pedir desculpa. Expuseste preto no branco a realidade. A verdade. A transparência desta história.
Ontem quando te disse que irias ter um post com muito para te entranhar, presenteia isto mesmo. A tua visão para além das minhas palavras. A tua sabedoria de me percepcionar de forma atordoante e me fazer estremecer. Serei eu fácil de ler? Ou serás tu uma das minhas páginas e eu nem sei?
Ninguém, até ao momento (nem na terapia) me conseguiu de forma tão clara e exata expressar a realidade. Essa que tu não sei como nem porquê, conheces e aqui me deixaste.
Não posso repetir. Mas confesso, pudesse eu colocar o meu coração no lixo...
Mais nenhum tens. E por esse tão ardentemente ter amado, sabes que foi-te tão leal quanto poderia ter sido...
As feridas dessa chama tão forte que te preencheu saram-se, o coração bate, e esse nunca te ofendeu... Tanto amor tinhas para dar, que ele fê-lo (até demais...). Não o deites no lixo... Lança-o ao mar, quem sabe o sal o limpe e as ondas o façam viajar.
E o que conheço de ti, é o que me dizes... Palavras nenhumas tento eu dizer minhas, talvez por isso que tanto se aproxima ao que sentes. Vejo indivíduos, e como indivíduos que o são, todos se lêem de forma diferente. Talvez a tua facilidade de te expressar por palavras o torne mais simples, mas de tantas complexidades são elas feitas.
Não és fácil de ler, porque se assim fosse compreenderias-te melhor que ninguém, nas tuas mesmas palavras... E eu que o diga, que perco-me mais nas minhas do que nas outras que leio. Mas como disse uma vês: As palavras traem o que sentimos, pois são elas feitas de significados...
E pedi desculpa pois lados negros estou eu cheio, e tanto eles me disse a mim mesmo... É por isso que evito fazer os outros passar pelo mesmo, apesar de alguns vê-los como luz ofuscante à minha frente.
Lealdade é uma palavra que o define, sim. E seio-o puro. Seio-o dócil. Seio de verdade.
E por o saber assim, é-me tão difícil contrariá-lo para o que sinto não mais me acompanhe.
"Tu, que te chegas tão perto e tanto dás de ti: Mas a quem te vê os passos, e apenas usa-te para aprender a dar os seus... Um amor condicional, um favor egoísta em troca de um amor puro... E de tão puro que o foi, não se viu corromper enquanto luz havia.
Amavas pelos dois, davas tudo de ti, e recebias um brilho... aquele que tu mesmo fazias..." - Não conseguiria expor melhor... a dura realidade que se pudesse voltar atrás, não queria que fosse um capítulo da minha história. Porque não posso mudar nada do que me fez. E terei que carregar a história comigo até ao fim do livro.
Os teus lados negros também podem ver a luz. E também a podem receber. Só não sigas como exemplo (ou vê como exemplo a não seguir) a pessoa de quem te falo... tu ainda tens "solução" :) Tu ainda vais a horas de fazer nascer luz em ti e sentir as dos outros sem a sugar, sem a usar. A luz, como tu mesmo dizes, tem que ser partilhada.
Agradeço tudo, seja mais ou menos baço. Tudo o que for honesto e vier por bem eu agradeço.
Ganhei-te carinho.
A mim dou-me tempo. Se querer alcançar algo, em alguém, estragarei tudo, pois iria fazê-lo por mim... E amar ama-se a dois.
Se a tua história quisesses apagar, o que dirias aqui, hoje? Talvez, pensasses tu, algo diferente. Mas, vá-se lá conhecer o destino, apostaria que seria no amor igualmente, este não sofrido, mas também não sentido... Um vazio, dizer amor e nada receber de volta... (O que eu faço?... Hum...).
Num livro que já está escrito (lido), não se pode nele escrever nem ler de outra forma. Pode-se sim, escrever um próximo, corrigindo o errado que ficou no passado.
Eu como disse tenho um passado em vazio, muitas das páginas em branco, e voltar atrás nele, para aprender o enredo futuro, não consigo. Faço um, do inicio, | e perguntam-se que dificuldades serão essas, quando é tão 'fácil'... | Não é, pois vida já tenho, não começou agora, e folhas em branco faz com que pouco dela aprendesse. Saberei erros, mas não os sei passar, se neles entrar. Saberei amores, mas eles não saberei amar, nunca o tendo feito...
Vejo a minha história, à frente, e eu a tentar acompanhá-la, sem lápis, caneta ou nada... Corro e nada fica meu, e isso, Rita, vou mudar. Mas não queiras tu apagar um passado...
E agradecimento será sempre aquilo que deixarei depois do teu, pois tanto em mim também me fazes ver... Talvez seja mais fácil ouvir nos outros o que queríamos dizer a nós mesmos. De alguma forma o faz ser mais real, pois não é mas nossa invenção...
Um beijinho :)
Acredita que escrevo por necessidade de expulsar de mim os sentimentos, mas se pudesse não os sentir nem escrever, era sinal de paz em mim.
É revoltante o coração... É revoltante saber que é impossível "A Bela e o Monstro", mas ainda assim amá-lo na sua natureza (ao monstro). Com tudo o que isso implica.
Se fosse possível desaprender o amor...
Sabes, fiquei lá...
É um dilema, os sentimentos. Num lado temos a vida de forma plena nem em sonhos alcançada. No outro lado temos a nossa, se com eles estivermos.
De tanto que a mente nos engana, no fim ela quer sentir-se exatamente como nós nos sentimos, pois o maior sonho de todos, é aquele em que estamos aqui agora. (Quase como escrevi hoje, no meu cantinho).
A plenitude emocional seria de tal forma angustiante que algo faríamos para fugir dela. Assim como da vida eterna. Essa um outro dilema.
O conforto que sentes ao caminhar no passado ainda te é grande, pois dizes que nele te encontras... A mente defendia-se disso mesmo, caso nesse lado não quisesses estar, mas ainda te é ele querido...
Deixa-te banhar ao sol, deixa as gotículas da outrora chuva brilharem com os raios luminosos nas tuas pétalas, deixa-as coloridas e não as quebres, podes sempre te recordar de quem foste, podes até sê-lo mais um pouco... Apenas não te percas. O passado torna-se frio com o tempo, os cheiros dissipam-se com o vento, nos caminhos buracos tão grandes vão surgir de já lembranças sumidas... E nele podes ficar encurralada, se o caminho perdeste a norte e sul, dessa mesma estrada...
Com banda sonora, posso claramente dizer que melhora... o sentimento! :-)
A letra... é qualquer coisa! E a sonoridade... A obra completa!
De facto, melhora um pouco. Mas o sentimento é pesado em ambos, na música e no poema.
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