Sei que ainda aí estás. Vestindo a ausência magoada sobre a pele de silêncios. Foi lá que nos encontrei, na ausência do ruído, depois das palavras, lado a lado sem incómodo. Dois silêncios em rima branca completos, versos soltos por escrever. Se o nosso lugar falasse, diria que nos completávamos por silêncios e nos (des)encontrávamos nas palavras.
Sei que ainda aí estás e me procuras na quietude dos fins de tarde, na verdadeira solidão das horas velhas. Podes entrar. Não fiques ao relento da vida, sob o casaco azul cansado de ombros caídos. Puxa uma cadeira e encosta o teu silêncio no meu.
Ainda há para além de ti um doce sonhar, onde descalça dancei. Um jardim por arranjar, onde flor me fizeste, e um céu melancólico por explorar docemente. Do mar negro e revolto em que te vais, recolhi as vagas vorazes que te desfizeram, e joguei-me em salvamento. Fui eu quem morreu no final, mas sei que ainda aqui vens para te encontrar nas sementes que deixei.
(Hão-de receber-nos, essas ruas da saudade, à vista de toda a gente.)
Luz em ti o que em ti fui. E escurece tudo o quanto não mais consegui ser, descalça e de alma nua… Não fiques às escuras, entra e puxa uma cadeira, encosta o teu (uni)verso no meu.
Sei que ainda aí estás e que aqui vens para te encontrar, quando todos os sons do mundo se elevam em demasia. É fácil trocar palavras, difícil é ser-se inteiro, em silêncio.
Por todos os cantos da vida esperei por quem me calasse as palavras, permanecendo.
Encosta o teu silêncio no meu. Sei que ainda aqui vens.
O meu olhar é nítido como um girassol Tenho o costume de andar pelas estradas Olhando pra direita e para a esquerda, E de vez em quando olhando para trás... E o que vejo a cada momento É aquilo que nunca antes eu tinha visto, E eu sei dar por isso muito bem... Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança, se ao nascer, Reparasse que nascera deveras... Sinto-me nascido a cada momento Para a eterna novidade do Mundo... (Alberto Caeiro)
quinta-feira, 6 de setembro de 2018
Encosta o teu silêncio no meu
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6 comentários:
Brian Molko's fan? Sweet... *_*
Sim!! Bastante! :)
Custa ouvir, agora, confesso... é sempre complicado ouvir músicas que te marcaram um capítulo de vida onde não podes retornar, por mais que sejas fã. Por mais que as músicas já existissem antes. Mas quando se partilham até as notas das mesmas músicas e se vivem melodias as dois, parece que no fim nem elas ficam inteiras.
Não consigo ouvir sem verter uma lágrima... confesso e não é vergonha. É sentir...
Enconta o silêncio no meu... É tudo que fica.
Por acaso, também evito ouvir os seus temas mais melancólicos... por motivos bem parecidos!
Verdade? Curioso... com tantas bandas no mundo, e temos os dois pedaços de história com as mesmas melodias. Aquelas que evitamos ouvir... porque ainda dói, porque ainda custa, porque ainda tocam cá dentro...
Braian, Brian, o que é que nos fizeste?
Quero pensar que só nos fez despertar sensações, embora nem sempre as mais saborosas... :-)
Que possamos guardar as melhores :) E que consigamos a elas voltar sempre que as quisermos sentir, ou relembrar. Porque isso também é viver.
Hoje ainda é difícil. Ainda não consigo ouvir a voz inconfundível do Brian sem uma lagriminha no canto do olho. Mas pelo menos é parte da banda sonora da minha vida. E isso diz-me muito!
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