A saudade pesa e arrasta-se, como quem carrega pedras nos bolsos do coração, pelos dias feridos e vazios. E a dor fura, sem piedade, o frágil tecido de que sou feita. As lembranças pintam as paredes com os traços do que deixou de ser e eu habito memórias que não existem, para lá da janela que se abre sobre o meu peito. (Onde te debruçavas ao amanhecer).
Visto os farrapos da história que por nós passou… sem me levar ou permitir ficar, lugar meu no teu peito. E sigo cega, pela noite cerrada onde os teus passos ainda me alcançam e abraçam, quando ao menino perdido o sonho retorna e aquece.
Da liberdade das asas dos sonhos, apenas restaram as penas desfeitas onde me deito e descanso, ouvindo a melancolia das flores azuis que me chamam lá fora. Foste tu quem as pintou para mim, entre gestos sábios e sorrisos nos lábios que já não vejo.
Queria regressar ao jardim onde fiquei antes de ti, e reencontrar-me na esquina do lago que me devolve a miragem do que agora sou.
As gaivotas ainda sobrevoam as palmeiras, o mar ainda espreita pela janela feliz, num abraço de lua. E de mim? Só a ausência nesse espaço onde te deixei, já nos abraços de outros braços noturnos…
A saudade passeia entre lágrimas e eu, de amor feita e desfeita, não sei arrumar as gavetas do meu coração.
O meu olhar é nítido como um girassol Tenho o costume de andar pelas estradas Olhando pra direita e para a esquerda, E de vez em quando olhando para trás... E o que vejo a cada momento É aquilo que nunca antes eu tinha visto, E eu sei dar por isso muito bem... Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança, se ao nascer, Reparasse que nascera deveras... Sinto-me nascido a cada momento Para a eterna novidade do Mundo... (Alberto Caeiro)
quarta-feira, 15 de agosto de 2018
Das frágeis gavetas do coração
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25 comentários:
Um dia as gavetas serão arrumadas, mas enquanto a tempestade é recente torna-se um processo moroso.
Deixa-as ficar desarrumadas, a seu tempo tudo voltará ao seu lugar.
Beijinho
Está tudo uma confusão e nada faz sentido. Arrumar dói, deixar como está dói, tudo dói... regressar aos jardins que antes regava em mim, também já dói... por vê-los devastados e sem o encanto de outrora.
Se o tempo correr, que passe veloz por mim e me leve para um tempo de paz.
Obrigada pelas palavras
Se a gaveta não fechar, tira uma peça que já não uses... Deixa só aqueles que realmente precisas!:)
A própria gaveta danificou... e não encaixa mais...
Claro que encaixa!
É preciso um carpinteiro? Lol.
Tudo quanto sejam seres humanos e seus ofícios, que fiquem bem longe do meu coração.
Ninguém entra forçado, alguém entrará de forma simples, genuína... Por agora apenas sorri, e esquece tudo o resto..)
Pudessem ser tão simples, o esquecimento e a vida...
O que hoje é complicado, amanhã deixa de ser...:)
Sabes, só que amanheça de forma doce e leve, com a minha luz retornada! Tenho uma saudade imensa... Dela... De mim...
Irá acontecer de novo..:)
I hope so Os Invernos são sempre necessários para preparar o terreno para a Primavera.
(Seria óptimo acordar e perceber que está tudo bem, que tudo não passou de um pesadelo).
É só pensares dessa mesma forma:)
Hoje tens um pesadelo, amanhã tens um sonho..:)
Como te havia dito, fosse tão simples quanto isso! Eu sonho é demais... Não posso perder-me em encantos que não sejam os dos meus jardins :)
Permanece é no teu jardim, e deixa que venham ao teu encanto.:)
Estou lá sempre! Menina eterna entre as flores de um mundo seu... Mesmo quando, ferida, me sento sozinha num recanto mais escondido. Mas nunca abandono o jardim.
Isso mesmo.:) Daqui a nada esse mesmo jardim fica ainda mais florido.:)
Obrigada pelo teu carinho e pela preocupação que tens em me proporcionar momentos mais leves! Não sei quem és, mas aceita um abraço de gratidão.
Aceito sim! Toda a alma merece estar leve, em paz, e preenchida de ternura e amor. E com tudo isso, mais vontade de escrever sentirás... E são muitos aqueles que gostam de te ler..)
Se eu te disser que isso é a única coisa que peço da vida, é estranho? Se eu te disse que nunca saberei essa conjugação também é estranho? Existe sempre um motivo para sermos como somos. Eu dou aquilo que a mim me falta... E tento ser para mim o melhor jardim possível, porque é nele que me refugio das tempestades da vida.
Olha, eu tenho mais facilidade em escrever quando estou triste, porque tenho necessidade de libertar tudo... Quando estou feliz quero é sentir isso em mim o maior tempo possível. Por isso, não escrevo. Ou só escrevo quando tudo já só é lembrança. Raras vezes o consigo transmitir por palavras no momento.
Não sei se são muitos, não tenho como saber. Mas também não é o número que importa, é serem os leitores certos. Os que me levam no peito, para além das palavras. Aqueles que de mim podem retirar positividade e alguma leveza para a sua caminhada. Aqueles que valorizam a simplicidade de uma alma de menina mulher, dona de lutas que muitos não podem imaginar.
Eu entendo tudo isso, e não é nada estranho... :)
Os teus textos são sempre belos! é um privilégio ler!:)
Fico-te grata uma vez mais. São catarse, muitas vezes. Há quem os julgue, e há quem me condene por transmitir desta forma o que em minh'alma vai. Cada um é como é, uns correm para o bar, bebem para esquecer, eu faço poesia e linhas de mim... Quem tem mundos por dentro é assim, não cabendo neles, retrata-os cá fora.
Solta, haverá sempre alguém que gosta de os ler... pela pureza que transmites...)
:)
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