quinta-feira, 23 de março de 2017

Ser-se mais qualquer coisa

Primeiro esgotaram o tempo
sem parar e tirar o relógio.
Esses que vivem agora sem espaço
cronológico.
Seguem já sem propósito
não sonham, não sentem
não falam só mentem
a si próprios, devastados.
Seguem a corrente de gente
que se diz cansada
de ser quem é!
Já sem querer ser mais qualquer coisa.


Sabem lá de si,
do tempo e do espaço onde ficaram
os sonhos que nem começaram
a sonhar. – Quanto mais a viver.
Ouvem e repetem como se fossem suas
todas as queixas
todas as deixas
de alguém que as escreveu para se expressar.
Já não sabem sentir.
Já não sabem pensar.
Já não sabem falar por si. – Há que citar
quem ainda vive, ou viveu
com tempo para ser mais alguma coisa.

6 comentários:

Robinson Kanes disse...

Tão actual!

Uma realidade que trazes para a poesia, uma análise de uma sociedade "esfrangalhada" transportada para a poesia… que escreves de uma forma singular.

Obrigado por continuares a pensar.

Rita PN disse...

Eu é que agradeço pelos teus comentários sempre construtivos e incentivadores, assim como por continuares a passar no meu cantinho.
Não me agradeças por pensar. Pensar deveria ser um dever inerente a todos! Já dizia Henry Ford "Pensar é o trabalho mais difícil que existe. Talvez por isso tão poucos se dediquem a ele".

E citando Arthur Schopenhauer, concluo:
"Importante não é ver o que ninguém nunca viu, mas sim, pensar o que ninguém nunca pensou sobre algo que todo mundo vê."

Francisco Freima disse...

Há muita gente assim, sem um vislumbre de sonho e à deriva pela vida. Seguem os pensamentos dos outros, mas são incapazes de usarem a sua cabeça

Rita PN disse...

"sem um vislumbre de sonho e à deriva pela vida." Definição perfeita de um grande nicho da sociedade actual.
Pensar pela própria cabeça é um trabalho árduo. Nem todos estão dispostos a.

Obrigada pelo teu comentário e pela leitura :)

Robinson Kanes disse...

Bem, eu utilizaria o mais "básico": "penso logo existo" de Descartes. Logo, obrigado por existires.

Rita PN disse...

Esse é daqueles elogios para a quais não tenho resposta, apenas uma enorme gratidão.
E é recíproco Robinson. Obrigada por existires e por me desassossegares a mente :-)

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