Por baixo da pele não há quem és.
És outro, não tu.
Não quem eu vejo. Não quem diz ser.
Por baixo da pele não cheira a impunidade. A sensatez.
E a dignidade, que era robustez e se desfez,
deixou à vista estilhaços e enchumaços
da hipocrisia que ostentas, mas não vês.
Há no teu sangue crimes de guerra
que a sociedade enterra para não ver.
(Será ela quem diz ser?)
E nos teus ossos, destroços
de vidas idas, perdidas, desfeitas e esquecidas
entre delitos , conflitos e divergências de pigmentação,
orientação, ideologia e religião
dos filhos a quem negas a mão.
Já cheira a fel o teu hálito,
por tanto de nós devorado,
expugnado, assassinado, desumanizado.
Por baixo da língua, diz-me, quantos em ti morreram?
Cemitério do povo.
Conto-te nos olhos o mísseis prontos a disparar,
quando finges chorar
à margem dos morreram sem te olhar,
em campos de concentração e horror.
Crianças e adultos inocentes,
globais interesses existentes -
e nós? Sem chão onde nos salvar.
Sempre que o teu ódio rebenta,
Verdadeira tormenta!
Terra Santa sangrenta.
E um dia irado, menos forte e julgado,
farás uso do crânio
para nos brindar ao urânio
que a todos servirá de mortalha.
Por baixo da pele não haverá ninguém.
[ Incompleto, à data. Ou talvez não... O Homem é homem e a História repete-se... ]
4 comentários:
'' Por baixo da língua, diz-me, quantos em ti morreram?
Cemitério do povo
engolido e ferido que te desceu às entranhas
e te conheceu por baixo da pele. ''
Conhecerás melhor estas palavras que eu pois são tuas, e eu nada vou dizer pois já elas disseram tudo.
Francisquito, elas passam a também ser tuas ao leres. Embora possam significar coisas diferentes, ou até mesmo iguais.
Tenho a certeza que as entendeste. Espero que estejas bem. Um beijinho
A beleza de um poema está apenas na veracidade do sentimento que as palavras transmitem.
E parabéns por, pela verdade, tornares belo os atos de quem não merece o chão que pisa.
Muito obrigado pela leitura, e pelo teor do comentário. De facto a poesia tem essa vertente de embelezar até o que não possui qualquer beleza, antes pelo contrário, pela forma como o expõe. A Poesia pode ser um grito, uma denuncia, um alerta, revolta, amor, sonho, amizade, felicidade, angústia... e por isso será sempre uma mensagem que se pretende passar, através da expressividade dos sentimentos que não queremos aprisionados em nós. Este tem uma mensagem menos bela... mas demasiado real. Obrigado eu por vir até aqui!
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