A final do talent show português The Voice Portugal que, semanalmente, ao domingo, entra em nossas casas e nos tolhe as mais variadas emoções, acontecerá hoje, dia 3 de Janeiro de 2021. A edição do corrente ano tem surpreendido pela elevada qualidade dos participantes, mas também pelos diferentes registos que se apresentaram a concurso. E se é verdade que as interpretações na Língua de Camões não deixam ninguém indiferente, importa realçar a capacidade emotiva e de entrega dos nossos três alentejanos, Luís Trigacheiro , Miguel Costa e João Maria Freixial Baião, todos finalitas desta edição.
Carregando o Alentejo na voz e ao peito o fado, sentimento transversal a um país, o Luís tem arrebatado com a sua simplicidade e humildade, genuinamente alentejanas e carismáticas, cantando a força da identidade de um povo e das suas raízes, de forma casta, mas fulgurosa. Uma alma intensa e imensa, que já atravessou oceanos e mares, à proa das emoções com que desbrava corações, sem conhecer limites fronteiras ou divisas. Há nele o encarnar de uma vida inteira - das vozes de outrora - da Ceifeira à Mondadeira, despontadas da paixão de um peito jovem, onde luz o sonho, a palavra e o Cante.
Há no Luís um "não sei quê, que nasce não sei onde, vem não sei como" e encanta sem necessitar de um porquê. Um brilho subtil e sincero, de luz elegante e gentil, que se entranha e arrepia, sempre que nos encanta com o respeito com que trata a Poesia de um país.
Delicias que nos chegam, também, através da cumplicidade e harmonia no jogo de vozes do Miguel e do João. Uma irmandade poética, um cordão umbilicalmente musical e emocional. Uma presença de dois, que num só se fundem no sentimento do que fazem. Uma conjugação de factores de peso, desde o chão Alentejano ao sol do Brasil, passando pelas suas (e grandes) referências nacionais e pela forma peculiar de sentir e estar em cada actuação. Tal como na vida. Melodicamente envolventes, num toque de ternura irreverente, cantam e encantam (quase) toda a gente.
Posto isto, atrevo-me a dizer que na final que se avizinha não se tratará apenas de talento, mas da tremenda ascensão do Baixo Alentejo enquanto território identitário, assim como de tudo o quanto ele encerra. As suas gentes, a sua História, o Cante, as vivências, costumes e tradições, a essência, as raízes, a humildade e humanidade, os campos, a calma, o sol e os corpos de trabalho, o pão, o azeite, o vinho e a semente da terra.
De pouca sorte, o Baixo Alentejo tem sido, ao longo dos tempos, deixado para trás, à boleia da cauda de um país. Embora valorizado pela sua pacatez, paisagens e gastronomia, os olhares descrentes nunca o souberam sentir verdadeiramente. Sementeira de sonhos e talentos únicos, a região detém um património de valor incalculável. Ou não fosse nossa aquela manifestação popular de expressão musical genuína e única no mundo, que dá por nome Cante Alentejano, reconhecido como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO em 2014.
Hoje, no palco do The Voice, vencerá, pelas vozes do Luís, do Miguel e do João, sem que para tal se tenha assumido a concurso, um sentimento que a muitos transcende, edificado por diferentes gerações ao longo dos tempos: O Alentejo.
1 comentário:
O Alentejo ganhou
O Cante não tem igual
Nasceu mais uma Estrela
O Luís ganhou na final!
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