Não quero da noite as confissões famintas,
nem das estrelas a luz brilhante em meus olhos.
Não quero saber do que não sei que em ti brilha,
ou na sombra te coloca o coração,
quando a minha mão na tua mão
escurece o céu
para que cegos, os astros se revelem
à nossa passagem interdita.
Não quero do sol as revelações diurnas
das impossibilidades que o caminho oferece.
Somos nós quem os sonhos tece
e quem, por vezes, se esquece que na vida
o acaso só acontece perto do fim
de um caminho já cansado que se trás.
E se à porta baterem futuros,
que não se sente à mesa o passado,
nem se faça presente o que não nos sorri.
Nada sei sobre os jardins que percorri,
onde nada colhi, nem sementes deixei...
Mas a lua ainda brilha
e a noite ainda dorme...
há um véu sobre as ruas
e é céu o nosso abraço.
2 comentários:
Porquê? O acaso ocorrer apenas no fim? No final de quê, também. Porque não é um acaso o inicio?
Claro, não se caminha em acasos, terá que os haver traçados no passado (os trilhos), e são ''os acasos'' as mudanças de direção, não a inércia dos passos.
Interessante. Os acasos não são inícios. Porquê? Também não são eles certezas, pois acontecem sem se pedir, encontrar ou desejar - Surgem, nem de forma tão simples assim.
Tão pouco são como a vontade. Essa, essa queremo-la, sai de nós e tem esse mesmo principio. É o inicio, e sabemo-lo porque somos nós quem marcamos as primeiras pegadas no caminho que desejamos seguir. Os acasos não.
Vejo os acasos como uma ferrovia, que está bem delimitada com as suas intercessões, obviamente - E são eles nada mais que o próprio descarrilamento. É um acaso, no sentindo literal e também, falando eu, no figurado. Pois os caminhos traçados, mesmo que não se percorram (naquele dia) estão lá, e nós sabemos deles. Os acasos são imprevisíveis.
Mas também há algo mais intrigante ainda. Nós conhecemos os acasos. Vivemos em tal modo conscientes deles que são parte da nossa vida. Desconhecer o que acontece não elimina o conhecer que algo irá ocorrer.
Então serão os acasos aquilo que nos retira do mundano? Da monotonia? Ou a prisão disso mesmo?
A insistência em fazer algo da mesma forma, esperando resultados diferentes... Estaremos presos nisso? Nas nossas rotinas, pois, sem muito esforço, poderá acontecer algo que valha a pena?
Vendo dessa forma, será uma vez mais problema do Homem, que pensa... Para os animais que todos os dias são para a sua sobrevivência, saberão eles o que são acasos? Porque não a vida, simplesmente? Nela acontece de tudo, porque não ''aquilo que não estava para acontecer''?
Ah, hoje deu-me para isto... Um pensamento ao acaso, em relação à palavra em si.
Mas não fosse tarde hoje que teria muito mais para refletir...
O acaso da vida. O que tanto se fala. Porquê acaso? Porque não teriamos nós que existir, em toda a probabilidade de não o fazermos? Acaso... Acaso o quê? Perdi-me.
Vai observar o Homem a vida com um olho, para deixar no outro a presença da morte...
Assim não se vive! Ou por acaso é isso mesmo a vida?
Ahahaha, peço desculpa, Rita... Há muito que nada me despertava tanto para pensar, foi por acaso um poema teu ^^
Um beijinho
Querido Francisco,
Começando pelo fim, fico feliz que tenha sido um poema meu a incitar tamanho pensamento. Gosto de fazer pensar e gosto de usar a escrita para isso.
Gostei da analogia à ferrovia e aos descarrilamento. Talvez os acasos levem a descarrilamentos, ou os sejam, de facto. Mas nem sempre pelo sentido negativo da palavra. Podem não ser um desastre, podem até evitá-lo.
A ideia de que os acasos vêm no fim de um caminho cansado, deve-se à nossa predesposição para os aceitar e lhes dar espaço a que aconteçam. Quando o caminho cansa, existe em nós uma necessidade urgente de mudança, podendo ser pólos de atracção da mesma.
Nos inícios das caminhadas, estaremos, à partida, mais empolgados, mais focados, mais entranhados... Não desviando a atenção nem estando abertos ao exterior. O mesmo sucede com os acasos. No fundo, não sei se os acasos serão assim tão por acaso... Existe sempre um timing certeiro... Um momento especifico, uma necessidade que faz acontecer...
Acasos podem ser motores de mudança. Ou sinais de que é necessário mudar.
Um beijinho :)
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