sexta-feira, 10 de maio de 2019

Ser

Esta manhã despertei com a voz do silêncio a segredar-me ao ouvido, numa melodia doce e calma, o significado de tudo quanto o ruído não diz. 

Pelo vidro fechado, espreitavam, suspensos pela ousadia muda em que eu lhes sorria, os sons do quotidiano adiado, da vida sem tempo que não pára, tão pouco para que seja vivida.

Esta manhã despertei e o silêncio abraçou-me, como por vezes se abraça o que se sente e não se diz. Contra o peito, onde o sonho faz leito e o coração imperfeito ressoa…

Esta manhã deixei que os meus olhos pousassem noutros olhos sem cor, lentamente e devagar, como quem lhe lê a História.
-A menina não sabe para onde ir…
-Queira aceitar as minhas desculpas, não era minha intenção transtorná-lo.
- Não sabe se caminhe para dentro e me leia o passado, ou se se mantenha parada e me observe o presente.

(sorri)

- Tráz realismo nos olhos.
- E a menina tráz sonhos. Tantos quantos as histórias que lhe poderia contar sobre lugares inquietos onde não chega ninguém.
- Talvez o senhor seja um deles…

Falou-me de si, não mais do que a duração do silêncio que trazia no bolso.
E falou-me de mim, no prazer incomum de uma conversa muda, ao jeito simples do olhar de um estranho que não julga nem se importa com o que visita em nós:
- … dos lugares misteriosos onde não chega ninguém.

(Porque por vezes sou apenas silêncio…)

 

3 comentários:

cheia disse...

Muito bonito, como sempre!

Rita PN disse...

Muito obrigado, amigo

Francisco disse...

Também gostava, de ser silêncio. De ser eu só, no momento.
Nas minhas janelas não tenho eu vidros, são eles ruídos, separando não o meu exterior do interior, mas puxando um na direção do outro.
Se sou casa, não me fizeram com paredes ou telhados, mas apenas uma só porta.
É ela a minha ilusão de silêncio, pois é a porta aquela que para o exterior se faz ouvir, quando a abro, ou aquela que o meu interior oculta, quando a deixo fechada. O meu único silêncio tornou-se o dos outros, pois já não lhes oiço palavras sair nos lábios, nem vejo gestos manifestarem-se nos seus corpos... De tão cansado que fiquei do mundo, fiz um inteiro cá dentro.
Não existe silêncio nele, pois julgamentos faço-os por todos aqueles que chamei barulhentos.
Refugiem-me sozinho, num qualquer local por onde fico, hoje aqui, amanhã quem sabe, conhecendo de priori que a solidão "não existe", fui-me apagado na minha ignorante procura, atrás de algo que me "mataria"...

Hipoteticamente

Dista-nos um quarteirão de luar onde, na sombra, os detalhes se ensaiam, os elementos se vestem de harmonia e onde todas as ruas parecem reg...