segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Sonho clandestino

Desce, a lua cálida,
sobre as águas inquietas da lembrança
que dança no teu lugar.
Descalça, a fonte entorna-me
os passos do olvido amor,
sobre a folhagem seca das ruas solitárias
que vagueiam em mim.
Faz frio e os meus ossos quebram,
os sapatos estão velhos
e o abraço do asfalto que me espera,
acelera a tua imagem, num tropeço inesperado,
pelo sonho transportado
clandestinamente - de onde vim?

Na carruagem do fim, viajas tu
em contra-tempo, 
correndo por um momento
de pensamento...
presença em mim.

 

 

 

 

 

5 comentários:

Francisco disse...

Não conseguimos enganar a mente daquilo que ela deseja... Podemos calá-la, por um momento, mas será esse sentimento trabalhado clandestinamente, e num qualquer sonho pode vir a aparecer, e nós, ingenuamente, agarramos isso, pois a vontade está lá, e a lembrança retorna.

«Faz frio e os meus ossos quebram,
os sapatos estão velhos
e o abraço do asfalto que me espera,
acelera a tua imagem, num tropeço inesperado,
pelo sonho transportado
clandestinamente»

A mente, ao tropeçar nessa lembrança, recorda-se a quem se quer segurar... Ou ao que o quer fazer...
E essa imagem do sonho retorna nas ruas que deixas-te abandonadas, mas que no final nunca chegaste tu a abandona-las. Caminhas por essas ruas negras, friorentas, e vês como lá não deixas-te nada... Mas tropeçar mostrou-te o que ainda lá está, e o que ainda retorna quando estás nessas mesmas ruas desamparada.
Ao esqueceres-te duma memória, e percorreres a sua cidade fantasma, encontrarás sempre lembranças passadas. Mesmo que observar um vazio, esse que é agora lugar de nada... Mesmo a esse reconheces-lhe o que lá esteve, quando a cidade era habitada...

Mas estou para aqui a escrever, e já estraguei um lindo poema >.<

Rita PN disse...

Não estragaste nada! Mais uma vez decifraste de forma certeira o que pretendo escrever. É incrível na tua capacidade de análise be a forma como vês para além de um poema. Por vezes, parece que és tu quem vive o que vivo/sinto.

Um abracinho

P. P. disse...

Um belo poema.
A certeza de que Love Hurts (tema dos Nazareth)

Francisco disse...

Não te estás a esconder nas palavras, escreves o que sentes... Eu repito apenas o que foi dito.
Por vezes evito dizer algo, quando te vejo a dizer tudo, outras apareço porque gosto de esmiuçar um pouco o que vejo dito, e vou nas tuas palavras fazendo-o, não nas minhas.

Para além de um poema está a pessoa que o escreveu... Lembro-me de ver apenas palavras, versos, e não ler mais nada. Mas quem se escreve (ou deixa escrito) não são as palavras, é a mão que as deixa... É aí que quero chegar, encontrar o ritmo com que elas foram escritas, o estado com que foram apresentadas...

Encontrar as pessoas nas palavras...

Um abracinho de volta

Rita PN disse...

Muito obrigada, meu querido PP.
Sim, por vezes Love Hurts...
Espero que esteja tudo bem contigo e com os teus, dentro do possível. Um abracinho!!!

Hipoteticamente

Dista-nos um quarteirão de luar onde, na sombra, os detalhes se ensaiam, os elementos se vestem de harmonia e onde todas as ruas parecem reg...