Desce, a lua cálida,
sobre as águas inquietas da lembrança
que dança no teu lugar.
Descalça, a fonte entorna-me
os passos do olvido amor,
sobre a folhagem seca das ruas solitárias
que vagueiam em mim.
Faz frio e os meus ossos quebram,
os sapatos estão velhos
e o abraço do asfalto que me espera,
acelera a tua imagem, num tropeço inesperado,
pelo sonho transportado
clandestinamente - de onde vim?
Na carruagem do fim, viajas tu
em contra-tempo,
correndo por um momento
de pensamento...
presença em mim.
5 comentários:
Não conseguimos enganar a mente daquilo que ela deseja... Podemos calá-la, por um momento, mas será esse sentimento trabalhado clandestinamente, e num qualquer sonho pode vir a aparecer, e nós, ingenuamente, agarramos isso, pois a vontade está lá, e a lembrança retorna.
«Faz frio e os meus ossos quebram,
os sapatos estão velhos
e o abraço do asfalto que me espera,
acelera a tua imagem, num tropeço inesperado,
pelo sonho transportado
clandestinamente»
A mente, ao tropeçar nessa lembrança, recorda-se a quem se quer segurar... Ou ao que o quer fazer...
E essa imagem do sonho retorna nas ruas que deixas-te abandonadas, mas que no final nunca chegaste tu a abandona-las. Caminhas por essas ruas negras, friorentas, e vês como lá não deixas-te nada... Mas tropeçar mostrou-te o que ainda lá está, e o que ainda retorna quando estás nessas mesmas ruas desamparada.
Ao esqueceres-te duma memória, e percorreres a sua cidade fantasma, encontrarás sempre lembranças passadas. Mesmo que observar um vazio, esse que é agora lugar de nada... Mesmo a esse reconheces-lhe o que lá esteve, quando a cidade era habitada...
Mas estou para aqui a escrever, e já estraguei um lindo poema >.<
Não estragaste nada! Mais uma vez decifraste de forma certeira o que pretendo escrever. É incrível na tua capacidade de análise be a forma como vês para além de um poema. Por vezes, parece que és tu quem vive o que vivo/sinto.
Um abracinho
Um belo poema.
A certeza de que Love Hurts (tema dos Nazareth)
Não te estás a esconder nas palavras, escreves o que sentes... Eu repito apenas o que foi dito.
Por vezes evito dizer algo, quando te vejo a dizer tudo, outras apareço porque gosto de esmiuçar um pouco o que vejo dito, e vou nas tuas palavras fazendo-o, não nas minhas.
Para além de um poema está a pessoa que o escreveu... Lembro-me de ver apenas palavras, versos, e não ler mais nada. Mas quem se escreve (ou deixa escrito) não são as palavras, é a mão que as deixa... É aí que quero chegar, encontrar o ritmo com que elas foram escritas, o estado com que foram apresentadas...
Encontrar as pessoas nas palavras...
Um abracinho de volta
Muito obrigada, meu querido PP.
Sim, por vezes Love Hurts...
Espero que esteja tudo bem contigo e com os teus, dentro do possível. Um abracinho!!!
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