sábado, 8 de setembro de 2018

No cais que me fiz

Atravessa-me um barco vão
e a velha bruma da delonga
antecipada...
da partida, o adeus sem volta
retorta, apenas ida.


No cais que me fiz, permaneço...
prolongada.


 

9 comentários:

Francisco disse...

Como pode a saudade ser tão bela? É ela o sentimento de perda... É a prolongação do belo que já não nos pertence; Mas que ainda assim nós queiramos que ainda o faça.
Talvez por ser das coisas boas que ela é feita, que se torna bela. Mas é muitas vezes em lágrimas derramadas que se sente, e que beleza é essa?

E no cais que te encontras, o da eterna saudade... Quantos barcos viste passar, depois do primeiro? Quantas vezes o teu adeus foi repetido, para o mesmo momento? Quantas vezes se despede para o mesmo acontecimento? Talvez, não sei, nunca o tenhas feito... Ainda de mão erguida estás, segurando as lágrimas esperando que se afaste... Mas agora longe, quantos mais barcos viste? Quantas mais lágrimas (não) derramaste?
Não sei se o que digo faz sentido, mas abandona esse cais... Não esperes por alguém que te salve da ilha do naufrágio em que te encontras. Faz o teu próprio barco, vagueia tu também no mar alto... E se recursos não encontrares, que ele seja mesmo de papel, e que viajes nas palavras que ele tem desenhadas, lavadas pelo mar sempre que o lançares, apresentado outras sempre que retorna...

Mas mais que não se assemelhava a enviarmo-nos as cartas que escrevemos... Vindas ao longe, mas com partida em nós... E isso seria o mesmo...

Porque é que há coisas que são assim mesmo? Porque não pode ser simples... Talvez o é tanto, que nós não o compreendemos...

Penso que não ajudei muito... Mas como posso eu saber saber além dos significados, saber além do que sentes?
Por vezes penso mesmo em não escrever nada, deixar-me apenas navegar nas palavras apresentadas, mas hoje não navegas, mas encalhas... E eu, que desdenhoso fiz este meu empurro, não sei se com mais reticência te fiz ver o mar, ou se te ajudei a nele saltar...

Hum... Desculpa. Penso mesmo em não enviar a mensagem, mas 'sozinha não te queria ver estar'.
Um abracinho de força!



Rita PN disse...

Oh meu querido, obrigada pelas palavras! Sabes, ontem quando escrevi isto que aqui lês hoje, sabia que a única pessoa que iria ser capaz de me interpretar o cais serias tu...
De facto a saudade é um sentimento ambíguo. É feita de tudo o que de bom fica e se guarda, mas revela-se entre lágrimas e emoções amarguradas. É bela quando se abre em poemas. Talvez, dos mais belos temas a par do amor... ou não andassem eles de mão dada tantas vezes.

Questionas-me sobre quantos barcos vi passar ou dequantos me despedi. Desta forma que aqui descrevo, de nenhum para além deste. Outros vi seguirem viagem, mas nunca lá viajei. Observei, apenas. Quantos não passam só por passar? Dois houve em que me despedi fisicamente, mas sei que olham todos os dias por mim, estejam onde estiverem, porque a morte é só uma coisa terrena.
Deste, como dizes, ainda de mão erguida me despeço, num aceno que se prolonga, numa miragem de um navegar que não finda... em mim.
Se me faço barco? Só se de papel, como dizes e tanto gostei. Só de papel para me levar a mim mesma em palavras por aí... como escrevi num poema anterior "Cartas de afeição que o vento leva... sem resposta,do meu ao teu coração."

As coisas são simples, nós é que as complicamos... e sei que tudo poderia ter sido menos doloroso, menos sofrível, menos penoso e pesado... contudo, há sempre dois remos, um não leva o barco sozinho.

Ajudaste sim. Só o facto de me compreenderes e te esforçares para. Hoje em dia quem é que se importa em atentar um boadinho nos outros? Em chegar mais fundo? Em lhe ouvir o coração descompasado? Em tirar do seu tempo para deixar uma palavra que seja? Andamos todos demasiado egoístas...

Desdenhoso porquê? Demorei-me a tentar perceber o que quiseste dizer, mas receio não ter interpretado da forma correcta.

Claro que me devias ter enviado esta mensagem. Nem sabes o quanto te agradeço este gesto.
Estou tantas vezes sozinha... mesmo rodeada de gente. Umas vezes porque assim desejo, outras porque simplesmente assim me são os dias... neste cais infinito de saudade.

Obrigada meu querido. Retribuo o abracinho que chegou aqui e me apertou honestamente!

Francisco disse...

Desdenhoso porque mais não fiz que solução não apresentasse... E quem quererá ouvir que não há fim, para as coisas que nem queríamos inicio? - Falo da saudade, não do amor. Saudade é a perda dele, e ama-lo com dor e não amor.

As palavras são traiçoeiras, quando a medo as fazemos, pois dizem o que queremos e o que não tanto... Melhor que a fala são pensadas, mas mais carregadas de sentidos se apresentam, e receio que das minhas fosse algo negativo a sua mensagem... Fico aliviado que não.

Fiquei sem o que dizer... Mas o teu agradecimento fez-me refletir em algo... Guardarei esse pensamento.

Em relação aos barcos, referia-me ao mesmo (barco), em lembranças diferentes «Quantos mais barcos viste?» Pois nunca nos despedimos completamente, e a permanência da despedida pode ser de vários acontecimentos... Um adeus é lembrado além do seu momento... E foi nisso que falava.
Um beijinho, e por mais que diga que não vale a pena agradecer, começo a revê-lo de forma diferente, pois foi isso que à memória me surgiu. Obrigado! E este deve ser dos mais estranhos, hehe.

Um beijinho

Rita PN disse...

"Um adeus é lembrado além do seu momento... " - tão certo... Um adeus não é um acto único,mas sim contínuo, desde o começo. Ninguém se despede só do fim, mas sim de tudo... E agora sim percebi o que querias dizer com "quantos barcos viste". E sim, despedi-me durante o caminho, também... num adeus que sabia que não o era... era só um descansar um pouco o coração. Das lembranças, enfim... São imensas, talvez a demora da despedida seja deixar de ver no horizonte cada uma delas, cada um dos barcos, cada um desses momentos... bons ou nem tanto.

Porquê estranho, esse Obrigado?
Eu agradeço sempre, a gratidão faz parte de mim. É devida.

Francisco disse...

Pois fui eu a te agradecer... E o motivo não cheguei a dizer.

Também o faço, por mais insignificante que as vezes o possa ser (aparentar)... Muitas vezes o faço para mim mesmo, agradecer aos outros. Nunca é o correto, mas para mim é me mais sentido rever a pessoa, com a lembrança da gratidão, do que dizer palavras vagas, que perdidas ficam algures.
Talvez por esse ato ser tão menosprezado e mal utilizado, que omito o meu... Cá dentro, não me esqueço dele.

Rita PN disse...

E não queres dizer o motivo? Gostaria de o saber...

Curioso o que dizes. Muitas vezes interpretamos erradamente quem não o faz, por não transparecer sequer que a pessoa o fica a sentir por dentro. Deixaste-me a pensar em quantos obrigados já me deram e eu nem retribui... Porque na verdade, não me chegaram. Mas foram sentidos no outro.

Agora sou eu quem agradece este ensinamento.

Francisco disse...

O motivo é simples.
O agradecimento pela compreensão. Nada mais é que uma troca de ideias e de nada físico, mas mais sentido o é, e nada mais nos fica para dizer ou sentir que um sorriso de gratidão...
Relembrei-me a mim a fazê-lo, sem saber porquê, e sempre a ser questionado porque o fazia, do outro lado... Mas lá no fundo sabia-o, pois nada mais sentia ou queria dizer que - Obrigado!

E foi isso que me lembrei.

Rita PN disse...

Oh Francisco, que lindo! Que forma tão bonita de agradecer e de expressar isso mesmo. Que bom que tenhas sorriso. Que bom relembrarem isso a ti mesmo. Já ganhei o dia :)

Um abracinho

Francisco disse...

Um outro de volta :)

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