quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Colarinho branco

Incógnito pelas ruas,
refugiando as mãos nos bolsos,
segue, sob o olhar atento da gula,
visível nos olhos da noite corrupta.

Habilmente tricotada em torno do pescoço,
tráz enrolada, nas voltas da vida,
a cascavel adormecida
que aquece e incita a mordida
envenenada; picada da língua afiada
no eixo certeiro do passo contíguo
de quem, sem nó de gravata,
no caminho honestamente se atravessa.

Sobre a calçada endurecida,
já muitos tombaram heroicamente,
à luz do candeeiro por interesse atenuado,
cansado que estava o rigor do país.
Exarcebado, fez o povo garrote
na própria perna e seguiu...
pela via da verdade, que o viu,
denunciar, em contra-mão,
quem não caiu, em falso passo, na escuridão
da intérmina auto-estrada da corrupção.

 

10 comentários:

Robinson Kanes disse...

A corrupção já não usa colarinho... Até já veste t-shirt...

Rita PN disse...

Verdade, meu caro. Verdade... Tempos modernos, já dizia o outro.
Omnipresença?

HD disse...

Mesmo sem colarinhos... este sentimento de impunidade ainda calcorreia as nossas calçadas... -.-

Robinson Kanes disse...

Isso faz-me lembrar aquela ideia de que muitos dos novos "players" que não usam fato e gravata mas andam descontraídos são tudo boa gente, nada cinzentos e todos "yeah" e humanos... Alguns sim, mas muitos não...

Rita PN disse...

Na verdade, a corrupção anda nua (e sorridente), bem à vista de toda a gente. E tal como tudo o que é recorrente, considera-se normal e banaliza-se. Já nem necessidade tem de se cobrir.

Robinson Kanes disse...

Por vezes, acho que não queremos é que as coisas se saibam... Não queremos mudar as coisas para melhor...

Rita PN disse...

E assim continuará a ser, infelizmente. Calçada portuguesa...

Rita PN disse...

Como dizem os antigos no Alentejo "filho, isso dá-nos muitas fezes. Não te apoquentes."

Robinson Kanes disse...

Dá muitas "fezes" e podemos ser encontrados no meio delas...

Rita PN disse...

Essa é que é essa.

Hipoteticamente

Dista-nos um quarteirão de luar onde, na sombra, os detalhes se ensaiam, os elementos se vestem de harmonia e onde todas as ruas parecem reg...