
Não creio que sejas tu mais do que outros.
Tao pouco que exista alguém que a mais se eleve
se posto lado a lado com o mendigo
que dorme ao relento da vida,
envolto no sopro de um cobertor de memórias
sob um alpendre que lhe ignora, irrisórias
as tempestades e intempéries que o papelão abriga.
Casa sem tecto e paredes de papel onde o coração dormita.
Chego a invejar-lhe o corpo e alma,
essa que sente tudo o quanto por ela passa
por mais ínfimo que seja,
por mais desprezível que nos pareça
por mais banal que se tenha tornado às nossas mãos.
Um corpo sem se nãos, que com pouco se enjeita
de alegria partilhada
e onde nunca o supérfluo se ajeita;
Aos contornos, frequentemente largo
o amargo cheiro das pregas vazias.
Assim se parece a nossa necessidade de enchumaços,
pecados de luxuria pendurados
nos ombros, nos braços e enchendo-nos a barriga.
Almofadados os pés,
enterrados que estamos em créditos até aos joelhos
para bem-parecer até às orelhas.
Não creio que seja ele menos do que tu,
ou eu mais ou menos que qualquer um de vós.
A diferença entre nós mora num arranha céus
de cem andares. Onde somos vizinhos.
No rés-do-chão sente-se pouco,
E os que muito sentem, escolheram o rés-do-céu para viver.
E sonhar no centésimo andar, a contar do vale dos mortos.
Não creio que tenhamos nós mais do que eles.
Se uns têm mais alegria, outros têm mais prostração;
Se uns têm mais tempo, noutros é maior a dilação;
Se uns doam mais sorrisos, outros fazem as lágrimas florir
sem sentir, que todos nós temos alguma coisa
entre nascer e morrer. Espaço cronológico que nos limita a existência.
Pode apenas ser ar nos pulmões,
essa qualquer coisa que temos.
Mas temos. E dar-lhe-emos valor?
… é amor do Criador, o oxigénio que a todos brinda, por igual.
17 comentários:
Gostei! Para refletir =)
Beijinhos
Sem dúvida para refletir, querida Ana :)
Obrigada e uma beijoca!
Uma visão contemporânea com um toque artístico! Gosto disto em ti! Não há muito por aí e… muito do que há nota-se que é escrito por quem vive num casulo artístico.
Muito, mas muito obrigada pelas palavras, Robinson.
É tão bom saber.
Há uma certa força impulsionadora em mim, no que à "crítica"dos contrates sociais diz respeito. Gosto de remexer nos "podres" e colocá-los lado a lado com o que de melhor pode existir em nós e no mundo. Gosto de explorar os paradigmas sociais e gosto de fazer pensar.
Nem sempre trago a público este tipo de críticas mais artistas, exatamente porque nem todos assim as entendem. E não sei se vale muito a pena dar a conhecer, se ao mesmo tempo vou gerar conflitos e ferir susceptibilidades.
Mas que é algo que me dá prazer fazer, é. Contrastar.
Acho que o deves fazer, até porque não radicalizas, chamas a atenção e chegas a trazer soluções! Continua que eu gosto de ler e acho que os outros também...
Radicalizar jamais. Nunca o objetivo será tomar partido de uma ou outra parte, mas sim, tal como referiste, chamar a atenção para o que tantas vezes nos passa ao lado.
Mais uma vez, obrigada!
Muito terreno, fora do pedestal habitual...
Igualdade à distância de um respirar :)
"igualdade à distância de um respirar", adorei! É isso mesmo!
Não gosto de pedestais, só mesmo para os usar como contraste na escrita.
Num pedestal só coloco Fernando Pessoa :)
Obrigado, foi a 'mensagem' que eu absorvi ;)
Eu sei, eu vi o teu altar ;p
Absorvida corretamente!
Viste o meu altar? Ahahaha
Meu não seria com toda a certeza. Eu e altares... hmmm pois... Sei lá...
Palpito que sejas mais de púlpitos ;p
É sempre uma delícia aqui passar.
Mas...
Trabalhei demasiado tempo no centro de Lisboa para conseguir dizer algo aceitável acerca disto. Vi muitas casas de cartão cheias de miséria que não material. Ajuda que vinha e era recusada. Mendicidade com altos níveis de marketing, com cães, estropiações e crianças. Já poucos são os realmente necessitados, a não ser para o consumo. Os que realmente precisam que se olhe para eles não estão nas caixas de cartão...
Beijinhos, amiga.
Tudo o que tenha conotação religiosa não é comigo! Deixa lá essas alturas para outros santificados!
Foi só pelo trocadilho :)
Take it slow, hon ;p
Obrigada sapinha, pelas palavras e pelo testemunho.
Bem sei que essa realidade também existe. Até na minha cidadezinha ela está presente. Muitos mendigam apenas e tão somente dinheiro para vícios. Quando se lhe dá um saco de pão, por exemplo, recusam. Só aceitam dinheiro. (Eu dinheiro não dou). Muitos utilizam as crianças e os animais, como referistes. E é bom que se fale sobre tudo isto.
Porém, este quadro de palavras é apenas direcionado aos mendigos sem abrigo e necessitados, que ainda dormem em caixas de cartão (que ainda os há por aí), que não têm família, que aceitam um papo-seco, uma sopa, uma peça de fruta, que ali estão à espera que as mãos certas se lhe sejam estendidas.
Acredito que esta realidade varie de cidade para cidade, de país para país, mas que ainda os há a dormir em casas com parede de papel, há... Obrigada por nos teres deixado a tua experiência nas ruas do centro de Lisboa :)
Beijinhos
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