domingo, 12 de março de 2017

No lume

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O hall abria-se para as restantes divisões. E ele estava em todas elas.
À esquerda, no escritório, lia Hemingway de perna cruzada e recostado na velha poltrona de braços largos, estufada em couro castanho dourado com acabamentos de madeira de jacarandá, estilo Dona Maria e ao gosto do avô inglês. 
À direita, era comum assistir-se à erudição das partidas de xadrez que travava contra o Professor Wesley e à frialdade com que, três ex-combatentes, debatiam temáticas como as antigas colónias, o marfim, os diamantes, os anos em que haviam integrado os teatros de operações da Guerra de África que, inevitavelmente, culminavam nas mais acesas críticas ao atual regime. No ar, os pensamentos enevoados de três charutos cubanos e nos lábios, o sabor de um Midleton irlandês que ardentemente descia e lhes aquecia as entranhas. O velho Stephen, filho de mãe inglesa e de um antigo Major português, costumava compará-lo ao sabor de uma africana que amara uma dezena e meia de vezes nas margens do rio Níger, durante a sua estadia em Bamako, capital do Mali, em 1952.


 


-Primeiro mordia-me e molhava-me os lábios com fervor, assaltando-me a boca com a sua língua encorpada, qual golada de verão num copo de Midleton sem gelo. A loucura do calor que em mim se entranhava queimava-me as vísceras. 
Ardemos durante várias noites, nas margens do rio Níger. Eu lume. Ela carvão.


Seguindo em frente pelo hall, envolvia-nos o cheiro a linguiça assada que se cruzava, já no interior da cozinha, com o do arroz de cabidela. O seu prato de eleição. Ouvia-se o roscar do saca-rolhas e o grito do vácuo ao saltar da rolha, seguindo-se a suave melodia com que o aveludado tinto alentejano tocava as paredes do copo. A faca de serrilha no pão, o arrastar da cadeira, dois talheres em trabalho e o mastigar com gosto.


Espreitei ao alpendre. O jornal do dia em cima da mesa. O avô não andaria longe.
Cheirava os coentros e a salsa. Desbastava a era que, fazendo jus aos seus dotes de boa trepadeira, cobria já a totalidade da parede de uma vida e do portão do casão, ao fundo do quintal.
Voltei ao interior e o avô não tardou em reaparecer, fazendo-se acompanhar por quatro grandes laranjas sumarentas que espremeu, dando-me a beber.


Sensivelmente a meio do corredor, ao virar do aparador em madeira de cerejeira antiga - peça de mobiliário datada de 1903 - entrava-se no seu quarto. E ali estava ele. Na moldura, na poesia de Eugénio de Andrade, no par de peúgas esquecido aos pés da cama e no smoking que levara ao meu casamento, impecavelmente pendurado no seu guarda-fato.
Ali estava ele também, em todas as suas memórias escritas e nunca partilhadas, por mim encontradas debaixo do pesado colchão que carregou durante anos o peso da vida que agora esmagava.


Ali estava ele. Em tudo e em nada. Ali estava ele, entre os espaços vazios. Ali estava ele, sempre que a luz se apagava e que comigo saía de mão dada, deixando para trás umas casa cheia, mas tão vazia de si.


Ali estava ele, o meu avô Stephen, outrora lume. E ela carvão.


Ali estava ele, o meu avô Stephen, muitas vezes pólvora e outras tantas munições.


Ali estava ele, o meu avô Stephen, agora em cinzas.


 

11 comentários:

miss queer disse...

lindo, Rita!
a forma como descreves o mobiliário, como descreves a ação, os cheiros, transporta-nos para lá!
parabéns! :)

Rita PN disse...

Muito, muito obrigada Queer! Um beijinho e bom domingo.

Robinson Kanes disse...

Faço minhas as palavras da Queer… grande evolução nas descrições! Parabéns.

Hemingway? Uma paixão por este escritor, estou a ver...

Rita PN disse...

Muito, muito obrigada Robinson.
Tenho vindo a adaptar e a acrescentar pormenores nestes pequenos textos para , também eu, tentar perceber qual o melhor caminho e qual a receptividade dos mesmos por parte de quem os lê. (Ensaios para o próximo livro).

Gosto muito da simplicidade e da humildade das histórias do Hemingway. Foi paixão à primeira página. O mesmo digo do Afonso Cruz que me cativou de imediato. E há mais.
Porém, o "meu" Pessoa é e será sempre o meu Pessoa.

Robinson Kanes disse...

Ainda ontem "estive" com o Pessoa na Gulbenkian :-)
Continua, eu estou a gostar :-)

Rita PN disse...

Vá, não me faças inveja que eu ainda não consegui ir à Gulbenkian nestas três últimas visitas à capital. Estive lá no dia da abertura da exposição ao público. A fila era de duas horas, não fiquei. Mas irei!

Obrigada pelo incentivo. É sempre benvindo!

Robinson Kanes disse...

Já está mais calmo. Deixo ir sempre primeiro "toda" a gente e depois é que vou. Merece a visita.

Rita PN disse...

Assim que tiver oportunidade irei! Faço realmente questão. Fui a Serralves ver Miró e... não gostei. Fiquei desiludida, esperava mais. A meu ver, as obras adquiridas por Portugal não fazem jus à grandiosidade da obra do pintor.

Robinson Kanes disse...

Miró não é dos meus pintores preferidos, embora aprecie algumas obras. Mas confesso que tenho de ir ver as obras que estão em Serralves.

Rita PN disse...

Eu não sou grande admiradora dele, mas há determinadas obras que gosto. A colecção de Serralves desiludiu-me, no sentido em que, deixa um pouquinho a desejar. Mas nada melhor do que seres tua vê-las :-) A interpretação da arte é muito pessoal e subjetiva.

Robinson Kanes disse...

é o que farei :-)

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