
Verificou o relógio, como era seu costume e passou os olhos pelas frestas de luz provenientes da janela do quarto. Jogou para trás os lençóis e espreguiçou-se demoradamente. No chão, os chinelos esperavam-lhe os pés despidos e na porta, o roupão previa-lhe o corpo.
A mobília daquele espaço era a mesma que vira pela última vez, há seis horas atrás, antes de adormecer. Os objetos permaneciam milimetricamente arrumados, o tapete não se movera um centímetro e as roupas penduradas, mantinham a mesma ordem. As mais claras em primeiro lugar, antevendo o escurecer das seguintes.
Em todas as divisões a ordem fora mantida durante a noite. Nada se movera.
Lá fora, o trânsito seguia o fluxo normal, com os engarrafamentos habituais e as buzinadelas repetidas. O caminho não se alterara nas últimas vinte e quatro horas. Certezas que também mantinha a respeito do frenesim da paisagem em constante movimento. A pressa movia-se sobre dois pés, as malas que pendiam dos ombros femininos pareciam pêndulos, as pastas dos engravatados corriam à sua frente e curvadas, as crianças arrastavam os pés esforçadamente, para levar adiante o peso do conhecimento que carregavam às costas.
Tudo acontecia conforme previsto. Dentro do previsível conforto da vida, que às gentes do mundo agradava.
- Mas porquê? – questionou-se – Tudo tão obvio, tão igual, tão banal, tão rotineiro e habitual. Porquê assim e não de outra forma? O que é que nos leva a isto? E pior, à sua aceitação? – Continuou a questionar-se.
Parou. Observou. Escutou. Demorou-se nos gestos e nas expressões de quem passava – sempre vira no óbvio algo incrível.
Olhou para o céu e para as pedras da calçada, onde entre duas, uma flor brotava.
- O que fazes tu aqui? A nascer em plena selva urbana, entre duas pedras à mercê de tantos pés…
Um espanto assombroso tomou conta dela, desencadeando uma corrente de novas questões e admirações, fruto de um misterioso incómodo interior que sentia sempre que olhava mais profundamente para aquilo que os outros olhos não viam.
Quem se admira não se conforma com o que lhe é apresentado.
Não verificou o relógio como era seu costume, nem passou os olhos pelas frestas de luz provenientes da janela do quarto. Jogou, apenas, para trás os lençóis e espreguiçou-se demoradamente. No chão, os chinelos não lhe esperavam os pés despidos e na porta, o roupão não se encontrava pendurado.
À sua frente, um caos. Nada estava conforme previsto. Nem a mobília, nem os objetos, tão pouco a ordem das roupas.
Com frio, viu-se obrigada a procurar o relógio, a vasculhar entre os cabides pelo seu vestido azul, a saltar por entre as caixas desordeiras que se estendiam pelo chão - dentro dos seus minutos contados.
Lá fora, as ruas cortadas não permitiam a rota normal. Desviou caminho e enveredou por atalhos, o que lhe permitiu observar novos detalhes, novos rostos, novos gestos e chegar à mesma hora ao local habitual.
- Onde estão os restantes?
- Atrasados devido aos congestionamentos de trânsito.
Pensou na flor que vira nascer entre duas pedras, num lugar improvável, em pleno caos citadino, exposta ao perigo. Analisou-lhe as dificuldades que tivera para ali florescer e as que agora enfrentava para, no mesmo local, sobreviver.
-Aquela flor nasceu para me provar que é na dificuldade que se encontra a oportunidade.
- Desculpa? Estás a falar de quê?
-De mim, José. De mim.
Olha para o mundo com os teus olhos e não com os olhos do mundo!
Rita
17 comentários:
Adorei Rita, muito bonito, muito intenso.. e uma excelente reflexão!
Ana , bom dia
Muito obrigada pelas palavras e pela leitura!
Um dia repleto de oportunidades onde as flores possam nascer :)
Não estagnar, não cair na apatia, não ceder a todas as rotinas… nos negócios diz-se que o "diabo está nos detalhes", talvez na vida também...
Acredito que sim, Robinson. Que é nos detalhes que ele vive e é deles que se alimenta, obrigando-nos a tomar a devida atenção a cada situação para que o possamos expulsar e, assim conseguir perceber o que se encontra (ou o que podemos fazer crescer) no seu lugar!
Um beijinho, Sábio!
Muito bom!!
Muito obrigada, querida Fashion
Mais um DAQUELES! ;)
Muito obrigada pelas palavras e pela leitura, Maria! Uma beijoca
excelente, Rita! tanto o texto como a reflexão! :)
são estes pormenores que nos fazem ver o mundo com outros olhos, há que aprender a vê-los!
Expulsar o diabo… gostei :-)
Beijinho
Obrigada Queer! Já alguém dizia, a diferença mora nos detalhes!
Um beijinho!
O que está a mais... só ocupa espaço! :-)
Beijinho
exatamente! são os detalhes que distinguem e que nos distinguem. somos nós que escolhemos como é que vemos as coisas. :)
beijo
Lindo texto.
Parabéns!
Muito obrigada pelo comentário, pela leitura e por teres passado por aqui!
Tinhas razão quanto a este teu post. Adorei. Acho que todos podemos ser com aquela flor que, mesmo na adversidade, resiste.
Tão bom saber que gostaste, Maria
Sim, todos nós podemos ser como elas! Eu bem te disse :)
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