sexta-feira, 18 de março de 2022

Para que servem os Poetas?

Penso. Penso, por vezes,
que é melhor adormecer
do que estar assim...
Na estante só, de pó carregado
de enviosado entre outros tantos.
Penso, vezes demais,
que é melhor dormir
entre os marginais
do que ser Poeta.

Digam-me!
Mas digam-me com força na garganta
e olhar de quem arranca
à pele o último bocado:
Para que servem os Poetas em tempos de catástrofe?
Catastróficamente pensantes,
entediantes,
desinteressantes,
balbuciantes
e mal cheirosos.

Não sei, digam-me!
Vós que lhes cantais e acompanhais a indigência,
sem resistência:
Para que servem os Poetas
se não para escrever o que não vemos,
tão poucas vezes compreendemos
e quase enlouquecemos p'la ousadia de entender?
Falam barato e não se ouvem
para além da boca de quem os lê.
Nem se vê, tão pouco, a roupa que trazem no corpo;
casaco às riscas
malabaristas que são no seu dizer,
pelo que julgo saber, através daquela estante.
Não. Não me aproximo!
Não me vá cair no cimo da catástrofe
a ordem natural dos valores.

Poetas! Ai Poetas!
Pois deixem-me ser eu a rir
antes de ir dormir,
ante este mal que é pensar.

Poetas. Mas para que hão-de servir os Poetas?

É melhor não querer saber,
do que tentar adormecer
com um Poeta em meu lugar.

Não. Não servem mesmo para nada, os Poetas.

4 comentários:

amorlíquido disse...

Espetacular!!

Rita PN disse...

Muito obrigado

Isaurinda baltazar disse...

No tempo que se vive.
Para que servem os poetas?
🤔

Zé Onofre disse...

Boa noite, Rita
De facto os poetas para nada servem.
Spartacus escreveu um poema em ação.
Continua a haver escravos do ter,
E escravos que ajudam os outros a ter mais.
Cristo, dizem que viveu lá na Judeia,
Vai para dois mil e cem anos,
Escreveu um longo poema de amor para toda a humanidade,
A humanidade continua cheio de ódio e ambição.
Na Índia, no século vinte, um homem bom
Escreveu um belo poema de braços caídos.
A humanidade continua a levantar as mãos contra si própria.
Nos Estados Unidos, um homem simples
Escreveu poemas feitos de sonhos de igualdade entre todos.
A humanidade continua a desprezar-se a si própria.
De Liverpool, na velha Albion, um músico poeta
Escreveu uma canção cheia de sonhos e esperanças, imaginem.
A humanidade continua a calcar com os pés e as mãos,
A destruir todos os dias as esperanças e os sonhos
E cada vez mais a capacidade de imaginar.
De facto os poetas para nada servem,
Mas sem eles a realidade seria ainda mais insuportável.
Zé Onofre




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