sábado, 21 de agosto de 2021

AFEGANISTÃO - Numa guerra, ocupação, luta ou negociação não são os Direitos Humanos quem move as grandes potências


  • Ocupações e intervenções militares, tenham elas ocorrido no Vietname, no Médio Oriente ou em qualquer outro ponto do Globo, nunca foram movidas por fins humanitários.


  • ‌Não são os Direitos Humanos, neste caso concreto os direitos das mulheres, que mobilizam potências e lutas. É o poder. Seja ele de carácter político, económico ou ambos.


  • ‌As mulheres afegãs conseguiram alcançar maiores direitos  depois de um violento golpe sanguinário ter colocado o Partido Democrático do Afeganistão no poder. Direitos que vieram a perder na década de 90, após a queda do regime, mas ainda antes do poder ser conseguido pelos talibãs. Foi em países de regimes "socialistas" árabes, apesar de regidos por ditaduras aguerridas, que foram conquistados mais direitos para as mulheres. Isto, por não serem democracias e lhes ter sido possível, aos países, a imposição e sobreposição destes direitos ao poder inquestionável da religião.


  • ‌Há uma necessidade de domínio (histórica), por parte do ocidente, dos povos islâmicos,  através da tentativa de imposição de democracias e liberdades ocidentais, numa teimosa crença de que o regime político do país ocupante é transponível (por imposição) ao país ocupado.


  • ‌Sempre existiu uma certa arrogância ocidental,   exercício de superioridade, abuso de poder, ambição e acomulação com repercussões número de guerras perdidas.


  • ‌O desrespeito pelos povos árabes, pela sua religião, cultura e costumes é notório na forma como se tenta fazer crer que são errados (segundo o nosso "ocidentalismo" e formatação cultural), impondo mudanças e transições que, para nós, serão entendidas como evolutivas, mas que, na verdade, em certas circunstâncias, vão contra os princípios daquelas pessoas (a quem nada foi perguntado).


  • ‌Democracia e liberdade serão sempre processos de autodeterminação (e não de imposição).


  • ‌Uma ocupação é sempre uma ocupação, seja ela a pedido do governo do momento, ou não. Como exemplo, a ocupação Soviética a pedido do governo da República Democrática do Afeganistão, a fim de o ajudar no combate à guerrilha fundamentalista islâmica, depois de o poder lhe ter sido concedido [ao governo] após um duro golpe sangrento.


  • ‌De lembrar que, nessa altura, os EUA apoiaram grupos aramados ( "Freedom Fighters") contra o mesmo governo. Grupos aramados esses que, posteriormente, usaram o treino e o armamento fornecido contra o Ocidente. Momento em que deixaram de ser considerados aliados dos Estados Unidos.


  • ‌A Rússia nunca lutou pelos Direitos Humanos do povo afegão, mas sim pelo seu próprio domínio e império.


  • ‌A ocupação do Afeganistão pelos EUA não travou o islamismo radical, porque a fonte de financiamento do terrorismo não são os países inimigos dos EUA. Esta ocupação apenas fortaleceu os radicais.


  • ‌A ocupação falhou e prova disso é que, após 20 anos, não existe uma sociedade afegã muito diferente daquela que viu os talibã assumirem o poder em 1996. Tão pouco preparada, embora tenham sido investidos triliões no país, se tenha armado e treinado o exército e se tenham perdido vidas. Não existe um exército afegão capaz de defender Cabul, face ao avanço dos Talibãs.Como poderia eles não regressar?


  • ‌O Afeganistão é um dos maiores exportadores de droga do mundo. (Será, muito possivelmente, o número 1 no que respeita a heroína). A droga será sempre uma grande fonte de financiamento.


  • Um governo, seja ele qual for, que apoia uma ocupação, dificilmente será bem visto pelo povo.


  • Afeganistão é um país tribal, são 14 os grupos étnicos reconhecidos, o que torna inviável a ideia ocidental de democracia.


  • Como países apoiantes dos talibãs surgem o Irão, a Rússia e a China,com relações estabelecidas ainda antes da vitória militar.
    O primeiro tem todo o interesse em apoiar a luta talibã contra os EUA, tanto quanto na aliança entre milícias xiitas (apoiadas por Terão) e a Al-Qaeda.
    A Rússia quer assegurar a segurança dos seus satélites na Ásia Central, ao mesmo tempo que é do seu interesse que os talibãs controlem o Daesh. Já a China tem por necessidade assegurar o futuro da Nova Rota da Seda, pelo que a estabilidade no Afeganistão lhes é fundamental. O governo chinês já demonstrou o seu interesse em colaborar com os talibãs na recuperação afegã.


  • Em Março de 2021 Biden foi alertado pelos pelos serviços secretos de que os talibãs dominariam novamente o país em dois anos. Venceu a crença no exército, mas... Domingo passado, chefe do governo pró-americano fugiu, oferendo aos talibãs o domínio de Cabul e do país.
    Na verdade, já existiam negociações entre os chefes regionais e os talibãs.


  • O exercito oficial afegão desfez-se naturalmente, após a retirada dos EUA e dos aliados.
    Afinal, não era um exército tão forte assim. (Como os americanos faziam crer).


  • Para os Americanos, esta não é só mais uma derrota. É, sobretudo, uma enorme humilhação.
    Não, não são os Direitos Humanos quem os moverá.


 


Postos em resumo alguns aspectos, há questões fulcrais sobre o Afeganistão que ultrapassam (e muito) a questão dos direitos das mulheres.
E sobre isso é, também, urgente informar e debater-se, para que o conhecimento permita que não se limite e/ou restrinja o tema a um único ponto (sem lhe retirar importância), sendo ao mesmo tempo possível uma melhor compreensão do mundo, do nosso mundo, e daquilo que move verdadeiramente uns e outros (assim como o seu porquê).
Poder é sempre Poder.


Pertencer ou ser-se império exige combate, guerras, lutas, ocupações, negociações... mesmo que, para isso, seja necessário usar, de forma falaciosa, hipócrita e debochada, os Direitos Humanos como mote ou premissa.


 



"Só sei que nada sei".


 



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Fonte da imagem: Jornal PUBLICO


 

2 comentários:

Zé Onofre disse...

Boa tarde, Rita PN
É bom ler palavras tão claras e esclarecedoras como as suas, que não põem de um lado os bons e do outro os maus.
É pena que a maioria dos jornalistas e comentadoras não sejam capazes de serem tão esclarecedores, mas que sigam a verdade feita nos escritórios e corredores do poder.
A história da Humanidade, desde que num momento lá atrás, uma tribo conseguiu acumular uns grãos de trigo começou o domínio de homens por outros homens.
As tribos conquistaram tribos e formaram-se reinos. Reinos, conquistaram reinos e formaram-se impérios.
Impérios venceram impérios que se têm vindo a suceder uns aos outros num galopar guerreiro cada vez mais feroz e carniceiro.
Por de trás de cada império cria-se uma ideologia para justificar o injustificável.
Roma ocupou os outros povos para imporem a paz - A Paz Romana.
Hoje, os impérios interferem com os outros povos para impor a democracia - A democracia Ocidental (ou uma outra...)
Mais uma vez mais obrigado pelas suas palavras esclarecidas.
Zé Onofre




Rita PN disse...

Caro Zé Onofre, eu é que lhe agradeço a gentileza das palavras, assim como a leitura. Seja sempre bem-vindo! Este cantinho existe para vocês!

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