Tem vindo a ser anunciado, de forma não oficial, mas oficiosa - garantindo a antecipação necessária à preparação de cidadãos e empresas - uma espécie de novo confinamento, em tudo semelhante ao de Março, Abril e Maio de 2020, não fosse o facto de nesta nova modalidade as escolas poderem permanecer abertas.
À primeira vista, parece-me a mim - que não especialista me confesso - que com cerca de milhão e meio de estudantes a circular, a que se juntam a classe docente e outros funcionários dos estabelecimentos de ensino, que não se tratará, por certo, de um confinamento, mas de uma espécie derivada do mesmo. Não se reduzirá o contacto próximo entre alunos dentro e fora das escolas (não sejamos assim tão ingénuos), pelo que o risco de contágio não sofrerá a redução que um período de confinamento pressupõe.
Serão necessários transportes públicos, onde as regras de higienização e distanciamento não serão as mais fáceis de cumprir, mas também serão necessárias deslocações familiares. Logo, mais uns milhares de portugueses a circular.
Por outro lado, confessando-me ignorante na matéria, fico com a leve sensação de que a tomada de posição do governo e dos parceiros sociais, no que à escola diz respeito, se deve ao tempo perdido e ao atraso da Transição Digital no sector, embora, para que tal acontecesse, tenham sido anunciados 400 milhões de euros, "em grande parte enquadrados no Plano de Recuperação e Resiliência (no qual se anunciaram 538 milhões de euros para as escolas)", segundo o Jornal Público.
A mesma fonte avança ainda que a "realidade é que os primeiros kits tecnológicos para os alunos mais carenciados chegaram à generalidade das escolas com o 1.º período a finalizar e em quantidade insuficiente" e que "só este mês está a arrancar um Plano de Capacitação Digital de Docentes", onde estaria prevista a disponibilização de equipamentos individuais ajustados às necessidades e acesso a conteúdos digitais de qualidade. Mas... nada disto aconteceu.
Atrevo-me então a questionar o que é que andámos a fazer desde Março passado até ao momento, e o que é que aprendemos com a catastrófica realidade do ensino em Portugal nesta pandemia. Talvez anular o ano lectivo seja um fardo que nenhum governo queira carregar, contudo, volto ao atrevimento de questionar, que futuro?
Não será novidade que a grande maioria da população portuguesa se verá novamente impedida de trabalhar, sendo que, alguns, ainda nem retomaram a sua actividade (!!!). O lay-off a 100% já se encontra aprovado, assim como várias outras medidas de apoio às empresas, ainda por revelar. Recorrendo à futurologia, será de prever novo boom de despedimentos, o prolongamento das moratórias e um avolumar da bola de neve, cada vez maior e mais pesada, capaz de engolir um país.
Segundo fonte do governo, estima-se que as quebras de rendimentos no sector privado no primeiro trimestre de 2021 rondem os 4 a 7% do PIB, o que a mim não me espanta. Espanta-me sim, um ano de inactividade dos serviços públicos - sem cortes nem penalizações - , sector que, sabemos, não gera riqueza, enquanto os privados se vêm, mais uma vez, a braços com a responsabilidade, o dever e o sacrifício de reerguer um país, qual fénix a renascer das cinzas.
Já vai longa a conversa, mas não quero deixar de salientar a irresponsabilidade atroz e primária da sociedade, que tudo tem deitado a perder com o seu comportamento egoísta e desinteressado, mas também não quero deixar de referir a falta de transparência dos nossos governantes no que à evolução pandémica diz respeito, assim como a falta de coragem para que se impedisse um Natal à larga e sem as restrições. Restrições essas que agora se extremam (embora António Costa assuma que não pecam por tardias).
Os hospitais estão lotados, os óbitos aumentam de dia para dia, a capacidade de resposta a outras patologias é cada vez menor, os cuidados de saúde não chegam a todos e muitos morrerão (sozinhos) por falta de assistência e camas.
A solidão dos mais velhos é avassaladora e o sentimento de abandono cresce; dele padece quem se vê privado do carinho e da presença dos seus, no (pouco) tempo que lhe resta de vida. O que, queiram desculpar-me a sensibilidade, é de uma violência lancinante.
Mas existem as excepções, os pagamentos de favores e as incongruências dos nossos governantes. Assim como existem, nas várias comunidades, as festas privadas, os ajuntamentos em época festiva, as grandes almoçaradas e jantaradas, o egoísmo, a irresponsabilidade e o desrespeito pelo próximo. E tudo isto se paga caro, muito caro.
Que futuro?
4 comentários:
Quanto ais computadores, foram distribuídos 100mil, faltando distribuir 240mil.
O que arrancou nao foi um plano de capacitação de docentes, mas um inquérito a essa capacitação. Inquérito muito mal feito, por sinal... porque quando pergunta "faz com os seus alunos ", deveria ter a hipótese de responder "não faco porque há alunos que nao telemóvel para isso "
Ações de formação em quadros interactivos, moodle, avaliação à distância, Classroom, meios digitais em sala de aula e o Diabo a Sete temos nós, professores, desde o século passado.
Muito obrigado pelo seu comentário e pelo feedback.
Não tive acesso aos números, mas sabia que faltariam entregar mais de metade, o que é demasiado. Porém, preocupa-me ainda mais o número de alunos/famílias que não têm acesso à Internet tão pouco ferramentas que permitam esse acesso. Sabemos que Portugal é dos países onde o custo do acesso à Internet é mais caro e, a esse respeito, também não existem medidas sociais, creio.
Parecemos um país tecnologicamente evoluído, mas... olhando para o ensino e para alguns departamentos do sector publico, percebemos que o atraso é deveras preocupante. Caso houvesse um plano e uma estratégia bem definidos, à data teriam sido resolvidas muitas questões, mas percebemos que desde Março pouco ou nada se alterou. Talvez, só agora, se esteja realmente a trabalhar nas soluções e no futuro que se fez presente.
Bom... Nesse caso o questionário não permite chegar ao cerne da questão? Considera-o vago?
Só para deixar um exemplo, eu já deixei o ensino há 8 anos, e nessa altura já existiam as ferramentas que refere e recordo que ultrapassadas. Contudo, em contexto familiar, vejo que a realidade da minha irmã, ainda estudante, não é muito diferente. Imagino que para vós, professores, não seja nada fácil o contexto actual e acredito que façam o melhor que vos é possível, com todas as condicionantes e com plena noção de que muito ficou por fazer.
O fornecimento de internet tb está previsto em caso de confinamento. Se acredito que resolva as diferenças sociais? Não.
O questionário nao chega a nada, porque nao considera a impossibilidade de aplicação, apenas se existe ou não por vontade do professor.
Se ha 8 anos o moodle, por exemplo estava desatualizado, ainda nao existiam as formações em Classroom, avaliação on-line, kahoots e muitas outras.
Nem de outra forma faria sentido colmatar a lacuna dos equipamentos tecnológicos. Contudo, o motivo pelo qual muitas famílias não possuem acesso à Internet, carece de rápida reflexão. Em pleno século XXI, o atraso português é enorme, e no que ao ensino diz respeito, existem grandes disparidades na aprendizagem e aproveitamento, fruto das consequências e do impacto das diferenças sociais.
Trabalhei no sector das telecomunicações durante 7 anos e recordo o quão violento era assistir ao desespero dos pais que queriam adquirir um computador ou tablet com Internet para os filhos, chegando mesmo, alguns, a chorar quando confrontados com a mensalidade e período de fidelização. Dá que pensar e é uma realidade bastante comum. Os próprios alunos sentem o peso da diferença e a dificuldade em acompanhar os demais, a falta de meios para explorar informação, adquirir mais conhecimentos, etc etc...
Seria catastrófico voltar às aulas online, mas também algo mais deveria ter sido feito a este respeito. O ensino carece de verdadeira reforma e de verdadeira preocupação e atenção.
Não sei como funcionava no ensino básico há 8 anos, mas no ensino superior (público), que frequentava, já existiam aulas remotas, bibliotecas de conteúdos, possibilidade de tirar dúvidas online e interagir com os docentes. As plataformas é que não eram suficientemente intuitivas e actuais.
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