Escritos por nós e sobre nós próprios,
rascunhos de passos a lápis traçados e limpos;
apagados que foram os rastos
das pontas das vidas perdidas
que se arrastam
entre as borrachas que se passam
e limpam o chão
das pegadas errantes que deixamos.
Versos mortos num colchão
à noite acordado e manchado,
p’la tinta da caneta com que tememos escrever
o presente, assente em estacas movediças
e cobiças alheias;
rasurados que estamos
e emendados que precisamos constantemente de ser!
Que terrível seria aparecer
vestido de folha de redação da primária,
de vermelho riscada, a transparecer
erros comuns.
- A caneta, deuses terrenos,
só a necrologia humana:
“Morreu por extinção o erro, às mãos da perfeição de Ninguém."
1 comentário:
Está lindo :o
E, claro, deixas-me novamente sem palavras... Mas como o assunto é mesmo acerca do erro, porque não errar ao profaná-las? hehe
Não sei o que há nas pessoas, o que lhes vai na mente, apesar de na minha viajar o mesmo... Também não sei o que vai em mim.
Não sei que vida julgamos fazer, ou qual sentimos fazer quando a comparamos... Comparar, idolatrar umas e desprezar as outras... Para quê?
Vivemos em constante julgamento, até o nosso próprio depois de tanto sermos julgados. Evitamos o erro, apaga-mo-lo nas sagas que escrevemos e somos todos heróis... Num mundo inteiro... No mundo só nosso.
Os quantos sonhos nem os chegam a ser, quando de noite percorre-nos o pesadelo que é a vida real. Que é os olhares postos em nós, mesmo no mais isolado ato, prontos para apontarem o erro ou cobiçar uma qualquer boa ação...
O quanto já não nos mentimos a nós mesmos, mentido aos outros?
Os quantos sorrisos que já não demos, as quantas pessoas que acompanhámos, os quantos atos não fomos influenciados, mesmo sozinhos a fazê-lo... Só porque «faz parte?». Faz parte sorrir em fotografias, ou andar com um grupo de pessoas (mesmo que não o querendo), que faz parte fazer o mesmo que todos os outros, porque o que nós somos... Bem, já nem o somos.
Como, ao escrever o que se sente, apagamos o que está por trás, deixando apenas lágrimas ou sorrisos, para todos «admirarem». Deixamos a origem ignorada, os passos que demos errados, as pessoas que nos impulsionaram, tudo é passado, um qualquer distante que fomos afastando... O que interessa é sorrir ou chorar, o caminho esse apaga-se, ignora-se, abandona-mos... Fazer é errar, pois nada é bem feito. Tudo reage, e por mais puro e bondoso que um ato seja, há malícia que foi apresentada, pois foi necessário uma ação positiva para a reverter.
«Que terrível seria aparecer
vestido de folha de redação da primária,
de vermelho riscada, a transparecer
erros comuns.»
Ao invés não os mostramos a ninguém... Escondemos a origem do problema, criando outros. Fossemos todos essa folha, (des)congruentes, pois o erro comum ''faz sentindo'', e corrige-se. Ao invés da palavra incorreta, fazemos frases, composições, vidas erradas...
Apagamos o que nos convém, mas carregamos a folha manchada com as palavras que outrora foram-(nos), as palavras que nos tempos joviais riscávamos, brincando e aprendendo, ao ser-se simples, ao escrever pouco para dizer muito, pois escrevíamos a origem das palavras...
Crescemos e desrespeitamos essa folha, por cima do cinza cansado apagamos e rescrevemos histórias, todas essas que já não nos fazem parte... Deixamos apagar-nos... Perdemo-nos na censura do olhar julgador, ficámos mais como todos os outros, somos sempre menos nós próprios...
A folha com que orgulhosos mostrávamos aos pais, ou colegas, professores ou amigos, cheios de orgulho das nossas primeiras palavras, muitas delas erradas... E agora nem escrevemos, pois de tanto apagar que a folha sumiu-se, não há espaço para errar... Não há espaço para escrever... Não há espaço para viver...
Enviar um comentário