segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Falsos profetas e outras marionetas

Naquela manhã comum, todos se pareciam com bonecas de corda. Bem vestidos, cara lavada, cabelo escovado e alinhado, focados e rodopiando sem desvios em torno de si próprios.


Nós aplaudíamos - assim nos ensinaram - levados pela melodia das histórias feitas, ensaiadas e tão poucas vezes verdadeira e honestamente vividas. 
Vinte minutos era o espaço de tempo decorrido entre o puxar da corda e a vénia final. Na verdade, cada um dos oradores presentes a isso se resumia, vinte minutos de palco. E o que é um orador de histórias contratadas se não, apenas, o tempo que as demora a contar? Não nasceu antes, nem morrerá depois. Foi ali criado, aliciado pela nova tendência de debitar palavras emotivas. Sinceramente, não as entendo. Às palavras. Não aos oradores. Esses são de corda, como as bonecas, vestem a dança e morrem no instante em que falácia finda. Nem antes, nem depois. Exatamente ali.


 


No meu tempo enforcavam-se com palavras, é certo. Não sei se será a mesma coisa - corda por corda - mas julgo que sim.


 


Voltando às palavras, dizia eu que não as entendo. Deram em emotivas? Essas modas que agora seguem. Ali estão enquanto servem, usadas e abusadas por quem escreve e lê e por quem fala e ouve. Depois, cai a moda e abrem-se valas comuns onde se enterram as ditas, já desgastadas. Mas, tal como é costume nas boas modas, logo estarão outras de volta, aquelas que já anteriormente haviam sido usadas e que, mais adiante, voltarão sê-lo.


 


Das modas e das palavras já sabe que vão e vêm.


 


Fazem-me lembrar os namoros de hoje em dia. Já o disse à minha neta. Correm, correm, correm que se farta. Estão sempre cheios de pressa. Para chegar onde? Ainda não entendi. Todos se parecem perder pelo caminho. Quando voltam, já trazem outro pelo braço. Ainda a semana passada lhe perguntei se era ruim o piso do caminho de agora, tão coxos que os vejo do coração. É no que dão as pressas!
Namorados e oradores são todos bonecas de corda. Bem ensaiadas. Em vinte minutos, que é o tempo que tenho até morrer.


 


Derramem-me o castanho da capa de um livro por cima, deixem-no inundar a manta com que à noite me tapo e permitam-me cheirar a terra fértil molhada.


Não me fechem já o caixão! Ainda não! Quero a última dança. O meu palco final é castanho e a vida só dura vinte minutos.


 

10 comentários:

Robinson Kanes disse...

E assim anda a manada...

Rita PN disse...

De facto, andam todos a reboque uns do outros. Inovação e diferenciação na forma de "renovar" e fazer o negócio pouco vejo. Ao invés, entra-se por esta vertente da imagem pessoal (que se pretende passar) e do discurso motivacional, emocional e, por vezes, moral como forma de atractividade e fidelização de novo público. Modelagem e alguma manipulação subtil, diria.
Certamente tu, embora não muito frequentador de redes, já reparaste que os vídeo de cariz pessoal/profissional nesta vertente são imensos. Que raros começam a ser os líderes, CEO's, fundadores, ou outras funções semelhantes (de quem tem tempo livre para, porque quem trabalha são os restantes) que enveredaram por este trilho.
É bem visto? Ou é necessidade de pertença? De afirmação? De publicidade? De se sentir interiormente valorizado? De superioridade? Poder de persuasão sobre os restantes? Tu és bem mais entendido nisto, talvez me possas elucidar. (Não sendo a primeira vez que falamos nisto).
Sinceramente, tudo o que é demais satura. E se existiam alguns profissionais na matéria, bem dinâmicos, necessários e com uma missão e propósito bem estruturados (pessoas com uma vida de trabalho dura, um caminho já feito, com sabedoria de causa e efeito, com resultados extraordinários nos seus negócios, etc) e que, após terminarem as suas longas jornadas de dedicação ao terreno, optaram por "ajudar" outros nos seus caminhos (digo eu que com capacidade e moral para tal), hoje em dia todo o lider, broker, CEO, "patrão" de uma empresa menina (menos de 20 anos), se sente moralmente capacitado para palestrar (seja no sofá, no escritório, no carro, na esplanada, no banco de jardim ou...). Sinceramente faz-me isto uma certa confusão. Isto é trabalhar? E o que têm estes discursos em comum com os seus negócios? Muitas vezes nada. Fala-se de negócios alheios e dão-se a conhecer exemplos que não os do próprio. (Mas devo ser eu que sou de Marte...).

Atenção, não crítico quem o faz bem feito. Mas é um nicho bem reduzido de velhos lobos do mundo dos negócios. Considero é desnecessário tanto cordeiro a querer vestir a pele de lobo.
Na verdade, quantos não caem no ridículo? Terão noção? O tempo que "perdem" nestas habilidades é de ouro para ficar no que realmente importa.

Serão as redes sociais sas novas revistas cor de rosa dos negócios? :p

Francisco disse...

Vou dizer o quê? Hehehe

Hoje não consigo nada - Mas que está muito bonito e bem apresentado!

Rita PN disse...

Acordei com os pés de fora ehehe :)
O mundo é ridiculo... fazer o quê?
Obrigada, meu querido. (Acho que tu Farias melhor) ;)

Francisco disse...

Faria melhor porquê? Como conseguiria ver mais do que tu vês, e expressar-me melhor do que tu te expressas?

Nas palavras não há quem o faça melhor ou pior, há visões diferentes para a mesma situação... Não avalio a escrita, as palavras utilizamos todos as mesmas (uns com mais ou menos eloquência) são as mensagens o que mudam... Não faria nada melhor! :P

Rita PN disse...

É por isso que gosto tanto de ti! (Eu e o PP, como já reparaste).
São as mensagens que mudam ( o mundo), as sinceras e verdadeiras! Sem dúvida.

Robinson Kanes disse...

E aqueles que se mexem como se fossem marionetas quando falam? Eu mexo-me um pouco, mas caramba, não controlo cada gesto como se fosse uma marioneta...

Não tenho redes sociais mas sei muito sobre as mesmas e trabalho com elas, como te entendo. Tem o seu lado bom, tem o seu lado... Enfim...

Costumo dizer que dos melhores profissionais dos negócios e outras áreas ninguém ouve falar, não se auto-promovem... Claro que também existem aqueles que o fazem, contudo... Na verdade, como diz Michel Maffesoli, somos eternos solitários a tentar viver numa tribo... Sempre assim foi, pouco mudou, espero com isto ter respondido à tua inquietação.

Rita PN disse...

Ahaha por acaso tive um formador que nos dizia que num dos cursos que fez, para aperfeiçoamento da comunicação em público, lhe era sempre dada nota negativa na postura porque se mexia muito.
Eu prefuro pessoas genuínas e o à vontade do improviso honesto do que a postura teatralmente ensaiada. Quando me apercebi disso, já não consigo dar crédito à pessoa. Dia tudo a falso...

As redes neste momento já "matam" mais do que "fazem nascer". Até te deixo aqui algo que vais gostar, penso eu:
https://m.youtube.com/watch?feature=youtu.be&v=OjPYmEZxACM

Eu costumo dizer que quem trabalha não precisa, nem tem tempo, para mostrar que está ou vai trabalhar. Simplesmente trabalha.
Da mesma forma, quem tem sucesso não o grita aos sete ventos, continua focado.
A auto-promoção, embora por vezes necessária em situações concretas, normalmente traduz o vazio interior existente na pessoa. "Todo o excesso esconde uma falta". Alguém que se sente realizado não tem necessidade de mostrar. É, apenas. Sente, apenas. Faz, apenas.
Está nova moda que sinceramente não entendo, só me demonstra o quanto andamos doentes...

O Michel tinha toda a razão...

HD disse...

As palavras já não as percebem...
Só as repetem e ordenam, como todos os outros já o fizeram... :\

Rita PN disse...

Infeliz realidade. Não sei se se chama isso palrar ou debitar...

Hipoteticamente

Dista-nos um quarteirão de luar onde, na sombra, os detalhes se ensaiam, os elementos se vestem de harmonia e onde todas as ruas parecem reg...