(...)
Não obstante, no regresso, eu não coube na vida. Nem ela em mim. Sobrava o vazio. As pontas caídas das bainhas por fazer. Os punhos desgastados sem a possibilidade de um avesso. Espaços abertos sem botões e botões incapazes de fechar os espaços. Essa era a lacuna entre o que sou e o que era.
Incapaz de me mostrar nu, envergando apenas a pele dos fantasmas que ainda hoje me assombram, procurei novas formas de vida. Novas modas. Novos interesses. Vestia-os e olhava-me ao espelho, sempre com um estranho a tomar a dianteira, ali de fronte, parado a olhar para mim. Quieto. E eu estático. Não falávamos. E embora sinta que o conheci, ainda hoje não sei o seu nome.
Um alfaiate não cose vidas.
26 comentários:
As vidas não são cosidas por alfaiates
Mas, por alguns debates
Na discussão das vaidades
Onde, tudo acaba com as idades.
O senhor José está inspirado :) Um sabado feliz!
Não me trate por senhor
Porque fico, ainda, mais velho.
Bom fim-de-semana
Pode haver sempre um bom conhecimento, sem saber o nome...
Permite-me discordar... nunca terás um conhecimento profundo sobre o que quer que seja que não possua identidade.
Não será o menos importante num verdadeiro conhecimento? É como um conhecimento de corpo ou ama...
Repara, dando um exemplo banal. Pensa na palavra livro. Automaticamente são criados na tua mente uma série elementos concretos que assossias ao objecto, mas em simultâneo, são também reais as emoções que esse objecto de proporciona, com base em experiências tidas.
Quando olhas para um livro, e por saberes que é um livro, são despoletados de forma automática todos os significados que lhe atribuís, enquanto objecto. E isso cria, em ti e para ti, o resultado e a definição de livro. No entanto tu não o leste, não o sentiste por dentro, não lhe permitiste que ele entrasse em ti, nem tu te entregaste a ele. Não podes ter um conhecimento profundo da sua identidade para além do que vês. Não exploraste. Não foste mais fundo. Tudo o que sabes é que é um livro, mesmo que possas disertar linhas e linhas sobre isso, com base na definição por ti criada. Mas isso não faz de ti pleno conhecedor da sua identidade real.
Agora imagina um objecto sem designação. Uma "coisa". Páras diante dela, observas tudo, crias dentro de ti associações aos vários objectos similares que conheces, vais criando a tua própria definação daquilo que vês. Mas não sabes mais nada. Não tem nome. Não te podes referir a ele como sendo "isto", em concreto. O que vai sempre gerar interrogações a seu respeito, deixando a sensação de que, de facto, não sabes o que " a coisa" é. Por mais que a possas ter no teu quarto.
Já se te disserem isso é "XYZ", e essa designação estiver estabelecida, foi-lhe criada a identidade.
No caso de um ser humano, nem penses, jamais, que tens pleno conhecimento de ou sobre alguém, porque nunca lhe poderás navegar a totalidade do Ser. Nem durante uma vida inteira. E se não lhe souberes o nome, por mais que o possas considear um pormenor insignificante, nunca terás numa só palavra tudo o quanto ela encerra em si mesma. O meu nome representa-me em tudo aquilo que eu sou. Se eu usar um pseudónimo, não sou eu. É outra.
Eu referia mais que, "lí" o livro, gostei, senti e até reli.... mas desconheço o nome do livro...
Lamento dizer-te que não leste o livro por inteiro. Les-te o que te quiseram dar a ler. Apenas isso. Quem se deixa ler na íntegra não se ausenta de si, nem se esconde atrás de outros nomes, apresenta-se UNO.
Maybe. O certo é que a transparência seja legitima, tal como a sinceridade..
A transparência está intimamente ligada à identidade. Se ela não te é dada, a transparência também não. E não peças sinseridade a quem não se quer dar. É utupia.
E tu, consideras dessa mesma forma?
Considero dessa forma, como assim? De que forma?
Alguém transparente, com a tal forte identidade e sinceridade...
Se eu me considero assim? Eu só sei viver na verdade, com sinceridade, bondade e transparência. Tudo o mais, não me faz falta. Nem quero.
Sim! Muito bem.
Nada como uma boa "identidade" junto com uma boa cumplicidade...
A idêntidade não é boa nem má. A identidande é! Já a cumplicidade, se o é, só pode ser positiva.
Permite-me uma questão, onde/como descobriste o meu blog?
Não me lembro... Andava a ver alguns, a ler, e fui parar ao teu, através da subscrição de alguém...
Vieste parar ao cantinho de uma cabecinha pensadora, que filosofa poetizando pensamentos e sentimentos.
Verdade! E por isso mesmo fiquei!!
:) Obrigada!
E agora vou tentar bater o Record de comentários... Lol.
Portanto, pretendes ser eleito como o maior comentador do meu blog! É legítimo ;) Até porque me fazer movimentar a massa cinzenta.
Sim, ser um seguidor assíduo... E o mérito é teu, pelos bons textos que escreves e partilhas.
Fico-te grata uma vez mais, pelo apreço a este cantinho! És sempre bem-vindo!
Eu é que agradeço! :)
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