quinta-feira, 8 de março de 2018

Sobre um dia que não considero 'O Meu'


Sobre um dia que não considero 'O Meu', dada a existência de outros 364 dias ainda por conquistar.

 

 


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Para contextualizar:





A ideia de se instituir o Dia Internacional da Mulher surgiu nos finais do século XIX e inícios do século XX nos Estados Unidos e na Europa, no âmbito das lutas e movimentos levados a cabo em prol dos direitos das mulheres. Como sejam a luta pela igualdade de direitos económicos, sociais, trabalhistas e políticos (onde saliento a luta pelo direito ao voto).



 



Movimentos que tiveram início a 8 de Março de 1857 em Nova Iorque, com repetição a 8 de Março de 1908. Ambos violentamente reprimidos pela polícia.



Foi também nesta mesma cidade que, a 8 de Março de 1909, se celebrou pela primeira vez o Dia Internacional da Mulher.



 



Seguiram-se países como a Rússia, Suécia, Alemanha, Reino Unido, França e Japão.



A Nova Zelândia foi, em 1893, o primeiro país do mundo a conceder o direito de voto às mulheres. Conquista resultante da luta de Kate Sheppard, líder do movimento pelo direito de voto das mulheres neste mesmo país.



 



Só em 1951 foram estabelecidos, pela Organização Internacional do Trabalho, os princípios gerais com vista à igualdade de remuneração entre homens e mulheres, para o exercício da mesma função.



E vinte e seis anos depois, decorria o mês de Dezembro de 1977, foi a vez da ONU adoptar o Dia Internacional da Mulher, como chamada de atenção para as conquistas sociais, políticas e económicas das mulheres. Faz, portanto, quarenta e um anos!



 



Ora muito bem, tanta referência histórica porquê? Para fazer lembrar, exatamente, que muito já foi conquistado, mas que tanto (ou mais) está ainda para o ser, no que à igualdade de género diz respeito.



 



Senão vejamos.




  • Estamos em pleno século XXI e a escravatura sexual continua a existir, o uso da burka continua a ser obrigatório em determinados países e a proibição da mulher sair à rua sem se fazer acompanhar pelo marido ainda se mantém.





  • Estamos em pleno século XXI e continuam a surgir notícias sobre abusos, levados a cabo pelos militares presentes nas zonas fronteiriças, sobre mulheres e crianças refugiadas.





  • Estamos em pleno século XXI e o número de denuncias à APAV (Associação de Apoio à Vítima) ascende. A igualdade salarial ainda é uma miragem, assim como a igualdade no desempenho de determinadas funções e cargos ocupados.





  • Estamos em pleno século XXI e vai longo o caminho que visa o equilíbrio entre os dois géneros, no que às tarefas domésticas e à educação dos filhos diz respeito. Estamos em pleno século XXI e ouvem-se barbaridades a respeito das mulheres, vindas da boca de gente desumana, detentora de altos cargos políticos, ou mais grave, de gente desumana no poder.




 



“Quanto maior é o poder, mais perigoso é o abuso.” disse-o e bem E. Burke.



 




  • Estamos em 2018 e a mulher continua a ser vista como o sexo mais fraco, sendo repetitivamente interpelada com afirmações machistas, de assédio ou passando à exclusão, nos mais variados temas, através de afirmações como “és mulher é diferente”, “isso não é tema para mulheres”, “és mulher, és mais fraca”, “já viste como estás vestida?”, “isso é tarefa de mulheres”, “as mulheres são um fardo quando engravidam”, entre tantas outras do vosso total conhecimento e consentimento.




 



[A respeito das sociedades desenvolvidas, o mais cego é aquele que não quer ver. Já no que às sociedades subdesenvolvidas diz respeito, o peso da responsabilidade, ao mundo inteiro pertence. Mundo esse que, de olhos vendados,  não quer ver.]



 



Decorre o ano de 2018 e os patrões oferecerem, na presente data, uma flor às suas funcionárias como forma de as homenagear… (por serem mulheres?).



Mas digam-me, será necessária a celebração deste dia para tal acontecer? Será necessária uma data para fazer lembrar aos mais esquecidos o que é ser mulher e quais os seus direitos? Sim, não falemos somente em deveres, que por sinal são equiparáveis aos do sexo oposto.



Será, porventura, necessário às próprias mulheres festejar um dia como este com jantares, festas e afins, contribuindo para que o verdadeiro mote destinado à existência deste dia caia por terra, perdendo o seu significado original e adquirindo um propósito fútil de caracter festivo e comercial?



 



Ou será necessário às mulheres e à sociedade em geral, a sua luta contínua por uma afirmação ininterrupta, ao nível das mais diversas patentes sociais, pessoais, económicas e políticas, de forma igualitária e justa?



 



Sem querer ferir susceptibilidades, e como mulher que sou, feliz serei quando não for celebrado este dia, mas sim todos os restantes, sem aparato. Feliz serei, sempre que não sentir ser obrigação, por parte de um homem, felicitar-me ou homenagear-me, a cada dia 8 de Março, por ter nascido mulher. Feliz serei, quando qualquer um dos restantes 364 dias for motivo para agradecer ao género feminino todas as suas lutas, conquistas e mudanças na sociedade.



 



É este o meu propósito em ser mulher. Lutar. Vencer. Conquistar. Igualar. Equilibrar. Mudar.



 



Por tudo isto e muito mais, hoje não é o meu dia! O meu dia serão sim, os demais que o ano tem. (Talvez não pára já, mas estou certa de que, na devida altura, tal acontecerá).

 

(Texto escrito a 9 de Março de 2017, hoje actualizado e republicado).


 

25 comentários:

Robinson Kanes disse...

Apraz-me ver este texto, escrito depois do "Dia da Mulher". Abre a porta para que não se esqueçam algumas coisas… até porque as celebrações de ontem… já ninguém se recorda.

As coisas não passam pelo "Dia da Mulher", como referes, mas é importante que nos demais 364 dias as coisas mudem, que se lute por uma mudança, pequena que seja. Acredito que o poder mobilizador pode ser imenso… chega de discursos balofos e vazios escritos por secretárias…

A capacidade mudar está nas mãos das mulheres e dos homens...

Rita PN disse...

Muito obrigada Robinson. Ainda ponderei publicá-lo somente amanhã, ou mesmo na próxima semana. Mas como não escrevi nada mais inteligente para postar hoje... :-)

"Acredito que o poder mobilizador pode ser imenso" - eu também!

"A capacidade mudar está nas mãos das mulheres e dos homens..." - Que nunca se duvide de tal! Sozinhos vamos mais rápido, mas juntos vamos mais longe!
Não só de homens, nem só de mulheres se faz a mudança e o mundo. (Já ontem falámos sobre esse tema). Mas certo é, que sem a acção e a atitude dos mesmos, nada se fará nem mudará sozinho.

Obrigada pelo teu tempo, Robinson! Um beijinho!

Robinson Kanes disse...

Já é algo bastante inteligente, tanta humildade :-)

Eu é que agradeço, e mais uma vez, é sempre um gosto passar por aqui.

Rita PN disse...

Só te posso estar grata por tudo! Um dos privilégios da blogosfera é, precisamente, este, encontrar cantinhos fantásticos criados por pessoas capazes de nos acrescentar, todos os dias, algo mais.
:-)

mami disse...

excelente enquadramento de verdadeira valorização do dia!

Rita PN disse...

Muito, muito obriga Mami pelo comentário e por ter passado por aqui!

Psicogata disse...

Como mulher recuso-me a festejar de modo grosseiro este dia, com festas parvas e algumas até indecentes, não foi para isso que este dia foi criado.
Uma pena que as mulheres se deixem enganar por festas e flores neste dia para serem rebaixadas durante o ano inteiro e ainda o façam alegres e contentes.

Anónimo disse...

Obrigada pelo artigo e enquadramento do mesmo naquilo que verifico no dia a dia.
Para mim também decididamente não é "O Meu"!

Anónimo disse...

Subscrevo na integra este texto, é isto mesmo...

Ana Silva disse...

Revejo-me inteiramente nestas palavras.

Rita PN disse...

Obrigada pela leitura e pelo comentário, Psicogata. Infelizmente a maioria das mulheres não tem conhecimento sobre a origem deste dia, vivendo-o e interpretando-o de forma contra-natura. Para muitas é um de liberdade, para outras de libertinagem, para muitas outras, culturalmente diferentes, um inferno, para um grande número não passa de um dia igual a todos os outros, para tantas uma afronta... E podia enumerar muito mais.
Ao longo dos anos a identidade e o propósito deste dia sofreu mutações , algumas tão fúteis quanto meramente comerciais, tornando-o banal.
Festejar com popa e circunstância é, a meu ver, uma afronta a nós próprias, quando a sociedade nos oprime nos restaurantes dias do ano. (E não enumero mais, porque escrevi o relevante no artigo).
Um beijinho!

Psicogata disse...

"Festejar com popa e circunstância é, a meu ver, uma afronta a nós próprias"
Já o disse a muitas mulheres, mas infelizmente a maioria não entende ou não quer entender.
Beijinho

Rita PN disse...

Eu é que agradeço a visita, a leitura e a opinião aqui partilhada.
Um beijinho

Rita PN disse...

Agradeço a leitura, as palavras e a visita a este cantinho.
Um beijinho

Rita PN disse...

Ana, muito obrigada pela leitura e pelo comentário deixado neste meu cantinho.
Afinal, somos várias a partilhar o mesmo ponto de vista.
Um beijinho

Orelhas disse...

Estamos em pleno séc. XXI e com tanta luta pela igualdade de oportunidades homens com brincos continuam a ver vedado o acesso ao um emprego. Parece-me que antes de se falar de géneros... existem questões que pertencem ao género humano.
Até hoje, e não digo que não aconteça, nunca vi um patrão ordenar/pedir/sugerir a mulher que retire os brincos para poder exercer uma profissão para qual tem competências e experiência profissional relevante.

Orelhas disse...

Peço desculpa pelos erros de sintaxe, mas esqueci-me que tinha o corretor automático em "on". :)

Rita PN disse...

Antes de mais, quero agradecer a leitura e o comentário aqui deixado. Relativamente ao tema, Dia Internacional da Mulher, apenas levantei questões atuais, recorrentes, sem fim à vista, com total conivência da sociedade global. A questão por si levantada é real, sendo um facto que merece ser questionado noutro contexto.
Existem inúmeras questões e opiniões, dado que não existem 2 seres humanos iguais. Sendo o tema "géneros" demasiado lato, nunca o conseguiremos condensar num único artigo de opinião. Ficarão sempre coisas por dizer.
A questão dos brincos, na nossa cultura, prende-se com a famosa afirmação "isso são coisas de mulher". Somos tantas vezes cultural e ideologicamente inflexíveis, que não aceitamos o significado de liberdade.
Mas posso garantir que, caso a mulher tenha mais do que um furo em cada orelha, existem casos onde é imperativo retirar os brincos para trabalhar, sendo igualmente verdade que só poderá usar brincos de tamanho bastante reduzido no primeiro furo. Depende tanto das profissões, quanto dos patrões.
Também há quem não aceite mulheres de cabelo curto, uma vez que o seu estereótipo são mulheres de cabelo longo.
E muito mais situações ridículas, a nosso ver, existem e existirão, tanto a respeito de mulheres como de homens.
Hoje, apenas direccionei para as primeiras, dada a universalidade da data e dos factos.

Quanto aos erros, não tem problema :-) Quanto mais inteligente se intitula a escrita automática, mais erros escreve. (Também a tenho activa, não tendo revisto o comentário agora escrito).

Orelhas disse...

Parece-me uma questão atual, recorrente, sem fim à vista, com total conivência da sociedade global também.
Por outro lado, na nossa cultura, existe também ainda quem defenda as touradas, e em casos particularmente excepcionais, essa defesa é suportada pela tradição e a morte dos animais acontece em arenas improvisadas á vista do publico em geral (não querendo parecer dramático).
No caso do trabalho e nas situações em que pode ou poderá ser imperativo existem, tanto quanto sei, processos a serem seguidos e apresentados convenientemente aos candidatos, e que sobretudo terão de ser justificados legalmente (sim, existe legislação nesta matéria). Também desejaríamos todos nós, termos menos latos que os - "boa aparência, aparência formal, aparência cuidada" - salvaguardando que isto pode ser um entrave á sobrevivência diária de um ser humano, independentemente do género.
Não negando que possa acontecer, confesso que o exemplo do cabelo curto, parece-me menos recorrente e já aceite.
No entanto, e percebendo a data em causa, irei aguardar pelo contexto indicado.
Com corretor inteligente ou não... Estarei por aqui no futuro. :)

Orelhas disse...

Só para completar e porque me esqueci, talvez pela hora adiantada.
Atentando ao exemplo que dei, admitindo que empresas e patrões diferentes terão posturas diferentes, quando alguma destes entidades, solicita a um homem que retire os brincos e não o faz a uma mulher, estaremos perante uma discriminação de género ou uma discriminação estética?
(e sinceramente, pergunto porque não sei mesmo, apesar de já ter escavado em muita matéria legal no que a este assunto diz respeito)
:)

Nuno Osório disse...

logicamente que é um dia de conquistas, de relembrar o direito a decidir e a ser igual, sem igualitarismos estridentes. Não celebramos o nascer mulher , mas sim o direito a decidir e aproveitar a data para esclarecer , para afirmar que se deve continuar a lutar para encontrar essa igualdade. É como celebrar um nascimento , um novo ano , um ciclo do sol. ..
Celebrar , afirmar e semear. Logicamente que a "besta" opressora da descredibilizaçao sempre nos convoca a ... cometer acções que não são mais que nossas inimigas. um feliz dia de conquistas. De um SER homem para uma mulher. Abraço.

Anónimo disse...

Penso que tem é de se desmistificar que o dia da mulher é uma celebração da mulher em que se dá flores e se fazem festas com as amigas. Este dia serve para lembrar que inacreditavelmente em 2018 ainda não existe igualdade e que todas as mulheres e homens devem lutar por isso todos os dias. No dia 8 de março faz qualquer coisa por outra mulher... associa-te a uma associação de direitos das mulheres, contribui para a APAV ou uma qualquer casa abrigo, doa qualquer coisa a meninas desfavorecidas, ou escreve um artigo como este belíssimo artigo para despertar consciências.. Parabéns está muito bom

Rita PN disse...

"No caso do trabalho e nas situações em que pode ou poderá ser imperativo existem, tanto quanto sei, processos a serem seguidos e apresentados convenientemente aos candidatos, e que sobretudo terão de ser justificados legalmente (sim, existe legislação nesta matéria)." - Deveria ser assim, não deveria? Mas não o é em todos os casos. A mim, já me foi solicitado que tirasse os 4 brincos que tenho a mais, sem razão aparente. Só porque poderia escandalizar o cliente. Não existia qualquer justificação legal presente no cotrato a esse respeito. Também tenho uma tatuagem, não visível, e só o facto de a ter gerou alguma rigidez na expressão da pessoa responsável pelo recrutamento, na altura. Colocou diversas questões a esse nível, tendo garantido que se a farda de verão a deixasse exposta, não atenderia publico. (Hoje em dia, graças a deus, o preconceito está a diminuir, estamos a conseguir ser mais racionais e liberais, tendo vindo a existir um trabalho contínuo no exercício da reflexão e interiorização do binómio aparência vs competência).

"Também desejaríamos todos nós, termos menos latos que os - "boa aparência, aparência formal, aparência cuidada" - salvaguardando que isto pode ser um entrave á sobrevivência diária de um ser humano, independentemente do género." - Perfeitamente de acordo! E subscrevo.

Relativamente à questão da discriminação de género ou discriminação estética, excelente pergunta. Talvez uma junção das duas. Talvez a discriminação estética pressuponha uma discriminação de género, mesmo que inconsciente.

Obrigada pelo contributo :-)

Rita PN disse...

Quero agradecer-lhe a leitura e o comentário aqui deixado.
Citando as suas palavras, "Não celebramos o nascer mulher , mas sim o direito a decidir e aproveitar a data para esclarecer , para afirmar que se deve continuar a lutar para encontrar essa igualdade. É como celebrar um nascimento , um novo ano , um ciclo do sol." - Entendo o que me diz, contudo e de acordo com o que expressei no artigo acima, penso que não deveria ser necessário a existencia desta data para apelar à reflexão, nem para fazer lembrar que a luta pelo equilibrio entre géneros (não diria igualdade) tem que continuar.
Não considero que seja um novo ciclo, porque o que ontem foi dito, hoje já foi esqueciso. Um ciclo pressupõe mudança, não sendo isso o que sucede, ou temsucedido, ao longo do tempo.

Um abraço.

Rita PN disse...

Quero agradecer a visita, a leitura e o comentário aqui deixado. Façamos, cad aum de nós, a nossa parte.
Um beijinho

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