
Anoitecia e no silêncio ouvia-te os passos. Chegavas tantas vezes depois do sol se pôr, quando já ia alta a lua no céu.
Chegavas e aqui ficavas de um lado para o outro, entrando e saindo de cada divisão, como se quisesses preencher toda a casa. E eu, muda, ouvia-te os passos sentindo-os em silêncio.
Atravessavas a noite e acordavas-me, por vezes, a meio de um sonho pedindo-me para nele entrar, quando na verdade, dele já nem saias mesmo depois de amanhecer.
Anoitecia, e em silêncio ouvi-te percorrer em passos mudos o soalho deste espaço. E aqui ficavas, apertando-me em surdina.
Hoje anoiteceu, janelas fechadas, coração trancado, por isso bateste-me à porta.
Abri e deixei-te novamente entrar. Sim a ti. O teu nome? Saudade... de tudo aquilo que ainda tenho por viver.
8 comentários:
"Not bad"...
Não é ruim... é apenas frustrante, por vezes, quando a sensação de vazio à nossa volta não abranda e dentro de nós existe um universo inteiro... quem nem sempre sabemos como projetar cá para fora. É uma saudade comum às mentes inquietas, aos sonhadores, aos ambiciosos...
Enquanto não posso, nem sei como materializar parte deste meu universo, sou apenas a sua saudade... essa saudade sei lá de quê... do que ainda nem começou, mas que já aperta.
"
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo
"
(Fernando Pessoa) Álvaro de Campos, Tabacaria
É um pouco isto?
A saudade não nos tira o foco, ao contrário da saudade balofa que nos tentaram impingir na nossa cultura. Sinto que apesar dessa tua saudade não ser propriamente uma alegria, também é o que dá força para procurar, não ficar...
É precisamente isso.
Pessoa nasceu para nunca mais morrer... e para definir alguns de nós, também.
Concordo contigo no que à saudade diz respeito. Por não se tratar da "saudade balofa" que o fado venera e o povo também, esta minha saudade não me tira o foco, antes pelo contrário, permite-me focar adiante. Não é uma alegria, não sendo, porém, de todo tristeza. É inquietação. Apenas inquietação com laivos de alguma indefinição, por enquanto.
Não fosse ela e estagnaria... e isso é tudo aquilo com que eu não sei viver!
Obrigada...
Obrigada...
E são... são mesmo... tudo isso que referiste, talvez... por vezes nem sei. Um dia descubro!
PS: já tinha lido esse teu poema e como sempre, adorei!
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