sábado, 28 de janeiro de 2017

Três malas e eu, trinta e cinco degraus descendentes e um combóio

 


Fechei com cuidado a última mala - lá dentro uma vida. Curta, mas uma vida – e fechei também a porta atrás de mim.
Não olhei nem parei para ouvir a voz das memórias por mim deixadas ao abandono, num sem-nada-de-espaço, recentemente desguarnecido de qualquer réstia de vida.
Três malas e eu. Trinta e cinco degraus descendentes e um combóio para apanhar.


Arrastei os pés, pesados e morosos, até ao primeiro lance de escadas. Equilibrando-me entre o peso do meu desalento e as malas, descaí de uma só vez. Alguém havia deixado aberta a porta do pátio para me auxiliar a passagem, pensei.
«Na vida, as saídas são-nos frequentemente facilitadas, enquanto que as entradas requerem algum engenho e arte, não sendo acessíveis a todos.»



Sentia agora o peso das chaves, as mesmas que outrora me haviam permitido atravessar aquela porta, para o interior. Pousei no chão as três malas, mais leves do que eu me sentia, e levei a mão ao bolso. Apertei-a por um instante e voltei a retirá-la, vazia.
«Também na vida há portas que depois de atravessadas, não nos levam a lugar algum.»


Apressei-me a chamar um táxi. Ardia em mim a urgência de partir. Durante o caminho não proferi uma palavra. Observei aquelas gentes, os prédios, as árvores, os autocarros que passavam, as esquinas das ruas que se cruzavam, para juntas nos levarem adiante.
Despedia-me de uma parte de mim, daquela que na próxima hora eu haveria de abandonar na plataforma da estação.
Abri a carteira, retirei a última nota e paguei. Reconfortou-me saber que ainda dispunha de um bilhete para o próximo combóio.
«Também os combóios são uma constante da vida.»


Um combóio, três malas e eu. Após trinta e cinco degraus descendentes.
Sentei-me junto à janela e observei através dela, pela última vez, quem ali, por mim, havia sido abandonada no banco da estação. Ao seu lado um par de sapatos, as pegadas por eles deixadas e um molho de chaves.
Descalça e sem peso nos bolsos, segui.
«Os meus pés não mais encaixarão dentro de pegadas antigas. Deixarão novas, no decorrer da minha mais recente viagem.»


Numa mala a infância, noutra a adolescência e na última aquilo a que vulgarmente chamam princípio da vida adulta. Em mim, 35 degraus já vividos com todas as suas lições, aprendizagens, erros e acertos. E dois bolsos vazios, prontos para acolher as chaves das portas que se abrirão para novos sonhos.


14 comentários:

A Desconhecida disse...

Que lindo texto!!! 😊

Rita PN disse...

Muito obrigada pelas tuas palavras!

Maria disse...

Sô Dona Rita... Que texto brutal...

Rita PN disse...

Oh Senhora Maria Alegria, Sô Dona Rita é outro campeonato! Sou uma menina! :)
Obrigada pelas palavras e um beijinho grande!

Malik disse...

Rita PN disse...

Malik, essas palavras são gratificantes. Muito Obrigada

Pedro disse...

Profundo e inteligente texto.. Parabens

Rita PN disse...

Muito obrigada Pedro!

fashion disse...

Muito, muito bom!! Gostei mesmo Rita.

Rita PN disse...

Tinha em mim essa certeza, que gostarias.
Obrigada!

fashion disse...

Muito, mesmo!

Rita PN disse...

Tão bom sabê-lo

The Travellight World disse...

Que bem escrito! Parabéns 👏🏻

Rita PN disse...

Muito obrigada T.T.W.

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