sábado, 24 de novembro de 2018

Combóio fantasma

 

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Ao meu lado um lugar vazio. Existia sempre um lugar vago, frívolo, carente ou frustrado.
Um homem de fato fingido. Um rosto bem feito de saudade. Uma lacuna de oito centímetros entre um salto alto e um queixo rebaixado. Um olhar translúcido e hiato que me fitava disfarçadamente.

Uma carruagem lotada num comboio que parou. O contraste entre o tom elevado das vozes e os sofridos nós nas gargantas. 

Respirava-se sofregamente, mastigando palavras de desagrado, que se traduziam nas mais variadas frustrações diárias.
Uma revista caiu. Estendeu-se uma mão, que vi desaparecer entre as páginas despidas de vida. Um chapéu voou, na procura da liberdade de pensamento. E aqueles óculos diante de mim, flutuando no ar, da direita para a esquerda, da esquerda para a direita, nervosamente inquietos? Procurariam olhos capazes de ver? O choro de uma criança que, percebi, não reconhia o batom da mãe que, num vermelho escarlate lhe gritava o atraso. E ao fundo, à esquerda, ora de fronte para mim, ora enfrentando a realidade, uma gravata azul escura, bem apertada, que depressa entendi ser a forca de um farda desgastada.

Ouvi o barulho do meu silêncio ocupar a carruagem nos quinze minutos que se seguiram. Ainda me restava um quarto de hora e o mundo parado. 

Ao meu lado um lugar vazio. Adiante, um lugar vazio. Atrás, um novo lugar vazio. Uma criança, cinquenta e sete ninguéns e um pronto-a-vestir a bordo.

O revisor anunciava: “Senhores passageiros, a avaria encontra-se reparada. Previsão de chegada ao destino às oito horas e cinquenta e oito minutos”.
O comboio avançava e cinquenta e oito era também o número exato de vidas que continuariam por consertar. Afinal, nem eu havia compreendido, até ao momento, que o lugar à noite vazio ao meu lado, eras tu quem o ocupava.

13 comentários:

Robinson Kanes disse...

Uma boa visão colectiva e depois mais pessoal… um estado de alma geral que culmina num fim imprevisível… dos melhores!

Rita PN disse...

Note-se que o final é apenas ficção. Já o estado de alma é recorrente e rotineiro. Fruto da vida que levamos, das prioridades que não definimos, dos constrangimentos emocionais, do engarrafar de problemas que tão pouco, interiormente, resolvemos. Continuamos a apanhar comboios para lugar nenhum. Sendo, cada um de nós, mais um dos vazios que ocupa um lugar.
Contudo, sempre que o comboio pára e nos permite uns momentos a sós com o mundo, connosco e com a vida, ecoam à nossa volta ecos de revoltas atuais e antigas. Estremece o chão, julgamos ver cair o céu mas, na verdade, quem se desintegra perante a realidade (que aquela paragem obriga a enfrentar, embora nem sempre a querendo ver), somos nós.

Obrigada sábio Robinson!

Kalila disse...

Lindo texto! Inspirador com os lugares vazios, sinto que acomodam a esperança.
Beijinhos, querida Rita.

Rita PN disse...

O vazio será sempre um espaço ávido de vida e emoções. Uma lacuna capaz de ser preenchida, se assim o entendermos. Mesmo que apenas com esperança.

Obrigada Kalila

Robinson Kanes disse...

Sim, eu percebi…

Penso que é necessário parar por vezes… não é por acaso que a visão de muitas pessoas é afectada por acontecimentos inesperados, paragens que não estavam previstas… isso leva a um tempo para reflectir, quer para o bem, quer para o mal…

Numa época em que andamos sempre de comboio em comboio a alta velocidade talvez fosse bom aproveitarmos para descansar num pequeno apeadeiro que seja.

Rita PN disse...

Já sabes que eu te adoro! Ou não fosses tu ter uma excelente capacidade de reflexão e análise, apreensão e captação da realidade, discernimento, uma abertura incrível de pensamento, ideias práticas e um conhecimento vastíssimo. Isto do que leio e do que por aqui debato e aprendo contigo.

Mais um excelente comentário.
Obrigada!

fashion disse...

Belo texto, querida Rita, como sempre.

HD disse...

Outro excelente conto com ficção q.b.
Mas dá que pensar na nossa viagem de vida... quando parar e regressar mais calmamente ao frenesim diário :)

Rita PN disse...

Querida Fashion, muito obrigada. Não só os meus, também os teus são sempre riquíssimos e humanos

Rita PN disse...

Muito obrigada HD! Gosto de que o conto te tenha feito parar, mesmo que por escassos minutos, para refletir sobre a viagem da vida (e sobre a mais valia que são os momentos individuais e as reflexões a que as paragens obrigam).

Uma beijoca :)

jose barrocas disse...

Comboio vazio, estação de Beja, comboio não, automotora sem aquecimento.
Feita para animais, que nós somos, mas racionais ou não.
Lugares vazios, já ão se veêm os reformados dos comboios, viajarem direito á linha de Moura, com destino a Serpa ,Pias e Moura.
Nos lugares vazios pescadores de cana que saiam em Quintos ou na estação ponte ferrovária, e que iam pescar: barbos, bogas, achigãs e felicidade em gestos simples e baratos.
Já não há pessoas, nem comboios nem pontes, apenas saudades e nostálgia.
Eramos mais pobres, mas muito mais ricos de carácter, pela tarde regressavam os ferroviários com azeite e vinho tinto da região, nos garrafões e no seu organismo, podiam beber pois não iam conduzir.
Chegavam os pescadores, cheirando a peixe e a ervas aromáticas que tinham apanhado durante o dia.
Doze horas bem cheias de companheirismo e de amor.
Já não há comboios nas planícies de Beja, já não há pessoas no Alentejo.
Mas há grupos corais, cantadores anónimos que com boas vozes Gritam Não queremos Morrer.

Rita PN disse...

Quanta realidade, Sr. José Barrocas!
É uma situação que deve, ou melhor, tem que ser urgentemente repensada por quem de direito!
Temo-nos feito ouvir. Temos mostrado a nossa indignação. Foi até mostrado ao país o terceiro mundo onde vivemos. Mas todo o avanço tem na base interesses diversos. E aqui, não os há. Ou não se tem pretendidoe que se desenvolvam. Quando não há poder de lobby, não há decisões.
A linha férrea é só mais uns dos muitos aspectos que nos fecham as fronteiras. Com que nos mantêm cativos e isolados, esquecidos de que também nós somos cidadãos de pleno direito, portugueses como os restantes, a pagar impostos iguais, apenas não usufruindo dos mesmos direitos.
Esta semana foi dado o primeiro passo de uma longa caminhada. Vamos todos acreditar, vamos agir em prol da mudança, vamos ser nós, cidadãos, a exigir o que as forças políticas (com voz inativa) desta cidade não fizeram em 40 anos de poder autárquico democraticamente eleito.

Beja Merece.

Francisco disse...

Fiquei a pensar durante muito tempo este texto... Já o tinha lido anteriormente, mas decidi encara-lo novamente, agora tentando dizer algo.
Deixar um vazio às coisas que não compreendo ou sinto dificuldade em encontrar-lhe o sentindo, é algo que nunca fiz... Nunca me vejo satisfeito com o resultado, nunca. Acabo algo sabendo que me esqueci de qualquer coisa, revejo o feito e acrescento-lhe atos, esses inúteis por tratar-se do passado.
Gostei muito de algumas analogias subtis que apresentaste, como ''Uma lacuna de oito centímetros entre um salto alto e um queixo rebaixado'', que, na minha possível errada percepção, apresentaria um grau de elevação a quem se «mascara» mas que no fundo sente sempre o que está por detrás da máscara. O mundo ao redor vê o que se mostra, o mundo interior mostra-nos o que sempre vimos...

O que mais me impressiona é que o ser só encara o tempo, quando está dependente dele. Melhor, quando está com ele...
Nenhuma reflexão é conseguida em movimento (disforme), ou nenhuma será prolongada tempo suficiente para encontrar-mos a razão da mesma... E mesmo que pensemos durante uma viagem cómoda, a simples alteração da velocidade que se percorre a mesma altera o raciocínio, enfatiza-lhe algo que talvez pudesse ser ignorado... Falo da viagem interior, a que se faz parados, sem velocímetros ou relógios... Só nós connosco mesmos.
Chegamos sempre a conclusões que indicam que não há fins... Tudo tem sentindo porque decidimos oferecer-lhe um, todos temos nomes pelo mesmo motivo, mas depois de tudo a que nos sujeitámos, sentimos uma qualquer urgência em preencher aquilo que mais temos por dentro - um vazio.
Queremos importar, nem que seja a nós mesmos, algo. Queremos que o nome que não escolhemos tenha vida, que a pessoa que nos ofereceram corra e ria, queremos pensar que somos mais que mais um. Muitos receiam essa visão (de ser mais um), e escondem-se nas trincheiras que foram cavando já desde novos, com medo de, alcançando a terra de ninguém, tenham de recuar perante o desconhecido, encarando novamente o seu refúgio.
Assim somos com as pessoas. As relações entre umas e as outras. As reuniões ocorrem em ambientes neutros, as conversas amistosas entre um canto e outro de terreno baldio, as disputas entre uma e outra trincheira... Mas o «Eu», esse cá dentro... E quem, no fundo, mais receamos.

Gostei muito desta frase ''Ao meu lado um lugar vazio. Adiante, um lugar vazio. Atrás, um novo lugar vazio. Uma criança, cinquenta e sete ninguéns e um pronto-a-vestir a bordo.'' Novamente, na minha possível errada percepção, encaro a criança como alguém que nada ainda é, uma alma pura, as restantes todos seres de máscaras (trajes), pois seria esse pronto a vestir a sua escapatória de serem aquilo que querem se mostrar, aquele pequeno compartimento onde em cada viagem tendem a procurar... Tanto procuram, revoltam os vestuários, experimentam e voltam a trocar... No fim falta-lhes sempre aquele que anseiam... Nesta altura estando tão mal preservado e empoeirado... O seu próprio vestuário... O seu «Eu».

Hipoteticamente

Dista-nos um quarteirão de luar onde, na sombra, os detalhes se ensaiam, os elementos se vestem de harmonia e onde todas as ruas parecem reg...