sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Breve reflexão sobre solidão social

Nunca o nosso mundo teve ao seu dispor tanta comunicação. E nunca foi tão dramática a nossa solidão. Nunca houve tanta estrada. E nunca nos visitamos tão pouco.


Vivemos hoje uma atabalhoada preocupação em exibirmos falsos sinais de riqueza. Criou-se a ideia de que o estatuto do cidadão nasce dos sinais que o diferenciam dos mais pobres.


Existem várias formas de pobreza. E há, entre todas, uma que escapa às estatísticas e aos indicadores numéricos: é a penúria da nossa reflexão sobre nós mesmos. Falo da dificuldade de nos pensarmos como sujeitos históricos, como lugar de partida e como destino de um sonho.


A modernidade não é uma porta apenas feita pelos outros. Nós somos também carpinteiros dessa construção e só nos interessa entrar numa modernidade de que sejamos também construtores.


No início, viajávamos porque líamos e escutávamos, deambulando em barcos de papel, em asas feitas de antigas vozes. Hoje viajamos para sermos escritos, para sermos palavras de um texto maior que é a nossa própria vida.


A palavra “ler” vem do latim “legere” e queria dizer “escolher”. Era isso que faziam os antigos romanos quando, por exemplo, selecionavam entre os grãos de cereais. A raiz etimológica está bem patente no nosso termo “eleger”. Ora o drama é que hoje estamos deixando de escolher. Estamos deixando de ler no sentido da raiz da palavra. Cada vez mais somos escolhidos, cada vez mais somos objecto de apelos que nos convertem em números, em estatísticas de mercado.


Todos nós convivemos com diversos eus, diversas pessoas reclamando a nossa identidade. O segredo é permitir que as escolhas que a vida nos impõe não nos obriguem a matar a nossa diversidade interior. O melhor nesta vida é poder escolher, mas o mais triste é ter mesmo que escolher.


É verdade que as novas tecnologias não costuram os buracos da nossa roupa interior, mas elas ajudam a alterar as redes sociais em que nos fabricamos.


Mia Couto, in “E se Obama fosse africano” 

15 comentários:

P. P. disse...

Quanta verdade.

HD disse...

Estamos cada vez mais afastados de quem deveríamos estar (sempre) próximos... -.-

Rita PN disse...

Essa é a verdade...
E quantos de nós, estando fisicamente perto, não estamos metafisicamente afastados de quem se senta mesmo ali ao nosso lado?
As relações pessoais estão seriamente comprometidas, quer queiramos aceitar, quer não queiramos. A era digital, os dias excessivamente ocupados, a falta de tempo, a falta de dedicação, as dependências e a facilidade do relacionamento impessoal...

Isto é bom tema para o Robinson :p

Rita PN disse...

Infelizmente, PP. Um beijinho

Robinson Kanes disse...

"Nunca o nosso mundo teve ao seu dispor tanta comunicação. E nunca foi tão dramática a nossa solidão. Nunca houve tanta estrada. E nunca nos visitamos tão pouco."

Uma de várias:

Ou Mia Couto me plagiou ou por cá, fomos nós que o plagiámos - mostrem-me as datas senhores :-)

Pouco tem a ver, mas um destes dias, alguém próximo, enviou um email sobre o dia do obrigado e da gratidão, numa empresa de mais de 500 pessoas: responderam 3! Os estrangeiros que lá trabalhavam!

Rita PN disse...

Não foi plágio, foi conexão intelectual. Metafísica, diria Pessoa. Gente sábia é assim :-)

Olha.. porque é que isso não me espanta? Deveria?
A culpa é da lonjura da redoma onde cada um sobrevive... Cápsulas de sobrevivência social.

HD disse...

E ele não fugiu à convocatória... ;-)

Rita PN disse...

Nunca se nega! Sempre presente! :-)

HD disse...


Bom fim de semana, querida! :-)

Rita PN disse...

Obrigada e igualmente, querido HD

Robinson Kanes disse...

A mim espanta-me cada vez menos...

Um destes dias disseram-me... Porque não te mudas (uma coisa muito portuguesa quando alguém aponta um facto verdadeiro ou tem de tolerar com a estupidez de outrem). Respondi que não tinha a capacidade de meter cunhas ou pedir a alguém para sair como essa pessoa tinha tido para nunca mais largar o poleiro... Acho que perdi uma amizade...

Por isso, a seu tempo lá chegarei :-)

Rita PN disse...

"Quem está mal muda-se." É um lema muito português. Mas não o generalizemos...
Uma coisa é uma coisa, outra coisa é a lei do facilitismo que cada vez mais se assemelha a "fuga" perante contradições da vida. É sempre mais fácil dar as costas do que enfrentar ou ajudar a melhorar.
O que te digo em seguida não é nenhuma novidade, tu sabes tão bem ou melhor do que eu, lidar com pessoas não é fácil. Gerir pessoas não é fácil. Trabalhar com pessoas não é fácil. Relações pessoais é um tema muito complexo. Pessoas são seres complicados. É preciso uma certa bagagem, a dose certa de condescendência, um grande cálice de paciência, compreensão, ALTERIDADE (que é o que falta à maioria, arrisco dizer), saber ouvir, saber escutar, saber falar e saber quando se deve falar. É necessária cooperação, partilha e simbiose. Por mais que queiramos, não nascemos para ser sozinhos, nem autosuficientes.

Essa questão que abordas, de dizer a verdade que nem sempre se gosta de ouvir, é fundamental numa personalidade íntegra. Não confundir com egocentrica... Se se perde uma amizade por dizer a verdade, talvez ela não tivesse os alicerces certos... mesmo que cada um tenha a sua maneira peculiar de pensar, ver e sentir...

Robinson Kanes disse...

Gerir pessoas é uma daquelas coisas que muitos fazem mas poucos sabem fazer :-)

Rita PN disse...

Tiro certeiro!

Robinson Kanes disse...

:-)

Hipoteticamente

Dista-nos um quarteirão de luar onde, na sombra, os detalhes se ensaiam, os elementos se vestem de harmonia e onde todas as ruas parecem reg...