
Livros, cadernos, blocos de notas, frases soltas em post-it, poemas, canetas, postais, recortes de jornal, páginas de revistas e fotografias – tudo espalhado num círculo à sua volta. Para lá da linha fronteiriça, um vazio interminável. Tão cheio de nada que, tudo quanto pudesse chegar, não teria espaço para se fixar – o nada é um território demasiado denso, que ocupa um espaço excessivamente grande - assim sentia aquele lugar.
- Lara, que desarrumação vem a ser esta?
- É a minha mente, mãe. Inquietações minhas.
A extensão do cosmos era, aos olhos de Lara, tão metricamente exatata, quanto o seu distanciamento às mentes mais comuns. Imensurável.
O seu apetite por cultura, lugares, gentes, aprendizagens, conversas construtivas e observações atentas e detalhadas sobre comportamentos humanos e sociais, era voraz. Nunca um prato cheio lhe era suficiente.
Necessidade primária, em tudo idêntica à ingestão de um doce após um salgado. Surgindo, após o doce, um novo desejo salgado.Também assim acontecia no cardápio de Lara, onde certa era a presença de um qualquer ingredinte capaz de lhe aguçar, mais avidamente, a gula do saber.
Apressada, mas nem sempre desajeitada, percorria caminhos, por utopias anteriormente pisados. Neles, segundo ela, sempre que avançava dois passos, também o horizonte se distanciava dois passos, obrigando-a a nunca terminar a jornada. Gostava particularmente desses jogos, sem vencedores nem vencidos, onde todos se intitulavam piões aprendizes.
Por vezes, incompleta, detinha-se diante do espelho, atenta ao seu reflexo. Olhar para si, era como abrir a janela para um mundo diferente todos os dias. Novos espaços para conhecer, outros praticamente esquecidos, ruas cheias, outras vazias e um livro branco a um canto, com tanto por escrever…
Feita de frases simples, mas nem sempre de fácil interpretação, assim se sabia ela.
Aprendia mais consigo, do que com muitas das histórias – de formas humanas - com quem se cruzava. Mergulhada numa introspeção contínua, analisava capítulos de leitura imprecisa e sentia palavras, soberba e apaixonadamente, como jamais alguém a poderia vir a sentir a ela.
- Já estás outra vez de roda do espelho?
- Um espelho reflete bem mais do que aquilo que nele vês– respondia.
As pessoas só atentam na superficialidade da imagem refletida. Na cor, no tamanho, nos pormenores externos. Não é por acaso que o espelho tem uma conotação física e narcisista, mãe. E o conteúdo da imagem? Também ele é refletido, embora nem todos estejam aptos a vê-lo. Talvez, porque nos seja necessário mais do que apenas os olhos para ver, na sua pureza nua, a totalidade de uma imagem.
- Lá estás tu e as tuas divagações. Era melhor que fizesses pela vida, ao invés de perderes horas embrenhada em filosofias que a lugar nenhum te levam.
- O melhor lugar onde posso chegar é ao coração das pessoas.
5 comentários:
"Mergulhada numa introspeção contínua, analisava capítulos de leitura imprecisa e sentia palavras, soberba e apaixonadamente, como jamais alguém a poderia vir a sentir a ela.". há tantas frases neste texto que me prenderam, mas esta... tive de destacá-la. :)
parabéns, Rita. consegues, sem dúvida, chegar ao meu coração com os teus textos.
Muito obriga Queer! É bom sabe-lo
O melhor lugar onde posso chegar é ao coração das pessoas ;)
calculo que sim, Rita.
Ao qual não pode chegar sem se conhecer a ela mesmo...
Nem mais minha doce Maria! Antes de chegar aos outros, é necessário chegarmos a nós
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