terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Uma breve reflexão sobre Tudo o Que o Amor Não É


 


Usando como título o nome de um livro da autoria do psicólogo e professor Eduardo Sá:


Em dia de festejos de São Valentim e onde a palavra em foco é o Amor, considero importante parar e refletir um pouco sobre tudo o que afinal o Amor não é. Para assim nos consciencializarmos de qual é, afinal de contas, o seu exato papel nas nossas vidas.



O Amor é um sentimento alvo de investigações e definições diversas, desde a psicologia à ciência, sem nunca esquecer a arte que dele vive e sobrevive. Na literatura, com maior foco na poesia, encontram-se-lhe milhares de definições. Certo é, porém, que as investigações se estendem, também elas, à investigação criminal e judicial, tal como é uma realidade (mais próxima do que se imagina), a entrada diária do amor nos gabinetes de Apoio à Vítima.
Isto é tudo o que o Amor não é.


Opressão, ciúme doentio, perseguição, desconfiança cega, ameaça, domínio do outro, controlo asfixiante da vida, dos passos, das roupas que se vestem, dos amigos, dos colegas, até da direção do olhar e das observações feitas, palavras ditas.
Isto é tudo o que o Amor não é.

Ameaça e violência. Homicídio.
É doença. É distúrbio. De personalidade ou psicológico, mas nunca será Amor.


Medo. É tudo o que o Amor não é. E é preciso algum grau de consciencialização e de decisão interior para a vítima de uma relação que deveria ser de Amor, paixão e romantismo tomar a decisão de se deslocar a uma esquadra policial, a fim de apresentar queixa contra o namorado/marido ou ex-namorado/marido.


A agressão não é um ato de Amor, tal como o pedido de desculpas que se sucede não é Amor declarado. 
É comum desculpar-se uma vez, duas, três vezes. À quarta, as sequelas são efetivamente visíveis. Mas atenção, o verdadeiro Amor não deixa marcas na pele nem feridas na alma. O verdadeiro Amor não sangra.
A esperança ilusória de que o outro irá alterar o seu comportamento, de que o seu arrependimento é real e a ideia de que a fazê-lo, o parceiro o fará por Amor, são enganos que evidenciam a morte da primeira vítima: o Amor próprio. 
E isto é tudo o que o Amor não é.


É necessária uma maior consciencialização humana, uma maior abordagem do tema, campanhas que cheguem mais próximas das vítimas, mãos e corações abertos, pessoas dispostas a ajudar. É necessário transparecer segurança, é necessária ajuda psiquiátrica, é necessário apoio, é necessário AMOR.


Dia 14 de Fevereiro, enquanto muitos comemoram o Amor (mesmo que só uma vez por ano nesta data), outros recebem-no, julgam eles/elas, violentamente. Um estalo embrulhado em papel com corações, um cestinho de ameaças, um ramo de opressões, um qualquer perfume com aroma a feridas abertas, marcas e hematomas.
E isto é tudo o que o Amor não é.


O Amor não mata. Tragédias gregas querem-se em livros, fruto da imaginação dos seus autores. Nos dias que correm já ninguém morre de Amor, mas sim pela falta dele.
E isto é tudo o que o Amor não é.


A quem realmente o vive, o partilha, o dá e o recebe genuinamente e pelo coração, ficam os meus votos sinceros de uma feliz São Valentim antecipado!


14 comentários:

Chic'Ana disse...

Está lindo o texto, profundo, intenso e espero sinceramente que chegue a muita gente! =)

Beijinhos

Rita PN disse...

Muito obrigada, Ana!
Gostaria de o ver chegar, é um facto. É realmente necessário que mensagens do género possam ser desmistificadas, para que a sua força chegue mais perto das vítimas desta realidade.
Tenho muitas vezes a sensação, de que o assunto tem o tanto ou quanto de tabu.
Que não é de fácil abordagem, todos sabemos. Mas também é de conhecimento geral, o quão valiosas são as campanhas, as mensagens e os testemunhos de quem já sentiu essa dor e agonia na pele.
Campanhas contra violência doméstica não são coisa nem propaganda feminista, até porque, também há vítimas do sexo masculino.

Vale a pena perdermos um minutinho de um qualquer dos nossos dias, para fazermos a nossa parte!

Beijinho e um excelente dia, Ana

fashion disse...

Muito bom Rita. O amor é, acima de tudo, muito mais do que aquilo que não é :)

miss queer disse...

obrigada por este texto! isto é realmente tudo o que o amor não é e infelizmente ainda há tantas pessoas que se esquecem disso e que permitem um não-amor.

beijo e um feliz dia!

Rita PN disse...

Bom dia doce Fashion! Exatamente "O amor é, acima de tudo, muito mais do que aquilo que não é". Tão certo : )
E em todos nós existe, de certa forma, uma parte da responsabilidade de o transmitir e fazer ser, de maneira a que, exacta e inteiramente, ele seja apenas e tão somente tudo aquilo que realmente é. Tal como também deveria ser nosso dever, alertar para tudo aquilo que ele não é.

Obrigada e uma beijoca.

Rita PN disse...

Desde já muito obrigada por passar no meu cantinho e pelo comentário, Miss Queer.
É uma realidade tão presente como qualquer outra, muitas vezes mora na porta ao lado, ou até mesmo dentro da própria casa. A esses, que a conhecem e a sentem ou sentiram na pele, não lhe devemos, talvez, chamar esquecimento de causa. Não creio que, no papel que ocupam nestas histórias, eles tenha, incorrido no esquecimento do que é realmente o amor. Presenciam sim, demasiado, tudo aquilo que ele não é. Muitas vezes é o medo que grita silenciosamente. É o desespero que chora baixinho por trás de cada sorriso forçado. É o receio que amordaça pedidos de ajuda. É um bloqueio mental e de raciocínio causado por demasiadas nódoas negras, agressões, opressões e ameaças... 'bati no canto de um móvel durante as limpezas'.
A dor existe. O medo existe. E o medo de uma dor ainda maior, também. Sendo tanto que se torna muito maior do que a dor, em si. Adquire proporções infinitamente grandes, ergue muros demasiado altos e encurrala as vítimas.

E nisto, talvez todos tenhamos uma palavra a dizer e um pouco de responsabilidade também. Se todos nós fizermos um bocadinho, não custa nada e esse 'nada' pode ser o suficiente para salvar vidas e corações.
A consciencialização para estas causas é deveras importante, assim como contribuir para que a mensagem chegue mais próxima das vítimas.
Estar atento a sinais, a pedidos de ajuda não formalizados e a mudanças de comportamento por parte de colegas, amigos, familiares ou vizinhos. Não ignorar os gritos que se ouvem no andar de baixo, não ignorar aquela senhora que entra num qualquer estabelecimento e não tira os óculos de Sol ou que independentemente de estarem 10 graus ou 35, nunca tira o lenço do pescoço. São pormenores e detalhes que podem fazer a diferença.

Dar AMOR. É preciso dar AMOR verdadeiro e na sua forma mais pura. É preciso um ABRAÇO. GRANDE. APERTADO. CHEIO. É preciso levar as vítimas destas relações de não-amor, a voltar a sentir o que é realmente o AMOR, a perder o medo e ter coragem de se voltarem para dentro de si e deixarem que o amor próprio renasça.
Não é fácil, é um processo moroso e doloroso, mas que tem que ser feito. e é nossa responsabilidade também.

Um beijinho e um dia feliz

miss queer disse...

interpretaste mal as minhas palavras.
eu sei que não se esquece. esquecer, como tantas outras palavras portuguesas, é polissémica. aliás, nada do que me disseste é novidade para mim, infelizmente. mas o que quis dizer foi que as pessoas não se valorizam, acham que não merecem um amor melhor e ficam presas nessas situações. esquecem-se que o amor não é aquilo.
mas vou continuar nesta e noutras lutas! :)

Rita PN disse...

As minhas desculpas pela má interpretação da palavra utilizada!
Falamos, ambas, com conhecimento de causa, então!
"...as pessoas não se valorizam, acham que não merecem um amor melhor e ficam presas nessas situações. esquecem-se que o amor não é aquilo." Verdade. Bem verdade. São feridas e traumas que ficam e que só com o tempo, amor e uma verdadeira ginástica interior voltam a sarar. Fica sempre a sensação de que voltará a acontecer, o medo de que as pessoas não sejam exactamente aquilo que parecem... por vezes, um gesto simples como um simples levantar da mão para acariciar, são percepcionados, irracional e instantaneamente, como o levantar da mão para agredir... Mas é possível voltar a amar e a permitir ser amado. como referiste, é uma luta, mas uma luta que vale bem a pena ser travada.

Muitos guerreiros e guerreiras há nesta vida : )
Nunca desistas das lutas que, bem dentro de ti, sabes que valerão a pena! Tens tanto direito ao AMOR como qualquer um de nós.
Um beijinho E um sorriso nesse coração!

miss queer disse...

não tens de pedir desculpa! :)
sim, qualquer gesto é visto como uma ameaça. uma amiga, uma vez deu-me uma chapada, a meio de uma brincadeira, porque interpretou mal um gesto meu! tanto lhe disse que devia aprender a proteger-se que acabei por levar.

neste campo tenho algumas lutas familiares.
pessoais as lutas são outras, como o meu nome aqui indica, mas nunca desistirei de nenhuma delas, isso é certo.

obrigada pelo trabalho que fazes, é sempre bom haver pessoas a lutar!

beijo e um excelente dia!

Rita PN disse...

Ora, claro que tenho. Erro reconhecido ;-)

Ora aí está um bom exemplo. De vez enquando lá acontece uma festinha mais agressiva!
As lutas familiares são nossas também :)
Força para todas elas, e o mais que posso desejar!

Obrigada, uma vez mais, pelas palavras! São importantes.
Também há lutas, que não sendo diretamente nossas, vale a pena travar.

Um beijinho

miss queer disse...

desculpas aceites, sendo assim. :)

por acaso já levei algumas dessas festinhas, mas vale a pena!
são muito minhas. pudesse eu fazer mais... obrigada! muita força também para ti e para quem ajudas.

todas as lutas, sendo para a melhoria da humanidade, merecem ser travadas. mais pessoas deviam fazê-lo!

Rita PN disse...

São festinhas que se guardam! :) São, muitas vezes, o princípio da força de alguém!

Nem mais, é exatamente isso. Se todos fizermos um bocadinho, esse bocadinho tornar-se enorme!
Sabes, por vezes acho que as pessoas têm receio de dar a cara por determinadas causas, mas há tanto que se pode fazer anonimamente. Ninguém precisa de saber, são coisas apenas nossas, da nossa consciência e coração :)

miss queer disse...

concordo inteiramente contigo!
é uma questão de se informarem e há tantas pessoas que lhes ficariam gratas. além de que, não desejando mal a ninguém, hoje acontece com estranhos, mas nunca se sabe se vai acontecer com pessoas próximas.

Rita PN disse...

Verdade. Hoje eles, mas manhã poderemos ser nós. Em muitas situações da vida, não apenas nesta.
Um pequeno gesto pode fazer a diferença.

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