
Para trás deixava metade de uma vida e de mãos a abanar e passo leve seguia adiante, pela estrada de terra batida.
O sol subia apressadamente à sua frente, iluminando-lhe o rosto gasto e cansado, sem cor de gente. Um Zé Ninguém - assim se autointitulava.
Num esforço desmedido, evitava olhar para trás. Não queria deixar memórias, tão pouco fazer-se acompanhar das mais recentes. Os antolhos mentais auxiliavam-no a limitar da visão lateral, forçando-o a olhar apenas em frente, sem correr o risco de se deixar levar por distrações ou tentações fáceis.
Com sonhos no horizonte, seguia o Zé, noite e dia por caminho instável, umas vezes seco outras tantas lamacento, assim como os seus olhos. Mas sempre certo de que todo o esforço e sacrifício valeriam a pena no final.
"Afinal de contas, um caminho sem obstáculos nunca nos levou a lugar algum. E que outras funções existem num obstáculo, que não sejam fazer-nos parar de fronte ou levar-nos a querer ultrapassá-lo?"
Ninguém o vira partir, tal como ninguém o iria ver regressar sete anos mais tarde, àquele lugar.
A mesma estrada de terra batida trazia Zé, agora Alguém, de visita. O mesmo passo leve, uma mão a abanar e uma criança pela outra.
“Benvindo às tuas origens.”
À entrada, o café do Adérito continuava igual. A garrafa de cerveja continuava em cima da segunda mesa a contar da direita, acompanhada do pires com meia dúzia de tremoços que as mãos do Chico da Parra, castanhas da terra, depenicavam.
Meia volta dada e à porta da igreja as mesmas vestes de domingo, aprumadas, os lenços a cobrir os cabelos presos em monhos das seis beatas à espera que o sino batesse as onze, para que se desse início à missa.
À esquina da rua, o senhor João ainda passeava o cão, o Esteves continuava sentado no banco a ler o jornal do dia anterior, a dona Deonilde estendia as meias do marido e a pequena Leonor rodava o seu vestido azul de folhos dançantes.
Zé, agora Alguém, com a criança pela mão, regressado fazia duas horas, continuava a percorrer a vila com os passos que a memória não desaprendera.
Pararam na tabacaria do Matias, ouviram parte do relato do jogo do clube da vila e Zé, agora Alguém, contou as mesmas 16 laranjas que pendiam da farta laranjeira do quintal da tia Maria. Tropeçou no mesmo degrau onde, durante a sua infância, tropeçava sempre que corria pelo pátio da escola. E desviando a cabeça lentamente para a esquerda, baixou o olhar na direção da criança que o acompanhava, verificando que também ela se havia ferido no joelho, tal como lhe era frequente acontecer a ele, em tempo idos.
Dirigiu-se a casa, mas não a encontrou. Seis ruas idênticas com casas de ambos os lados, todas elas iguais. Uma lágrima e as duas mãos a abanar.
“Onde é que tu vais? Anda cá. Não saias de perto de mim.”
A criança dirigia-se à terceira rua, a correr, parando à porta do número 6.
“A nossa casa é aqui.”
Imaginou o cheiro a café e o som do piano por ele próprio dedilhado. As túlipas ainda lá estavam, alguém as regara durante a sua ausência prolongada, pensou. E o baloiço também. Sentou-se com a criança no colo e balançou, como a vida.
"Ainda fazes boas viagens, companheiro!"
Passou pelo largo central onde, outrora, se situava a sua livraria. A porta aberta prendeu-lhe a atenção e espreitou. O cheiro dos livros ainda permanecia intacto convidando-o a entrar. Sentou-se no chão diante da única estante que restava, com sonhos no horizonte. Ali se reencontrava.
Porém, ninguém o reconhecera. Nem o Adérito, nem o Chico, tão pouco o senhor João ou o Esteves, a dona Deonilde, a pequena Leonor e o Matias. A tia Maria, coitada, já não via. E ele ali estava, de mão dada consigo próprio sete anos depois. Trouxera-se criança no regresso para melhor recordar a vila. Aos seus olhos nada mudara, excepto ele, o mesmo Zé, outrora Ninguém e agora Alguém, estranho para toda a gente.
Diante da estante de sonhos, retirou da segunda prateleira o quarto livro a contar da esquerda. Abriu-o e leu:
Outrora eu era daqui, e hoje regresso estrangeiro,
Forasteiro do que vejo e ouço, velho de mim.
Já vi tudo, ainda o que nunca vi, nem o que nunca verei.
Eu reinei no que nunca fui.
10 comentários:
Escreves tão bem!...
Muito obrigada minha querida Maria!
Muito bonito! Um belo pedaço de literatura!
Oh Maria, enorme gratidão pelo comentário feito. Que bom teres gostado!
Um beijinho!
adorei
Adoro quando adoras as minhas histórias, doce Fashion
Acho que vimos o mesmo filme este fim de semana...
O texto está de facto brilhante e a conclusão com o poema de Pessoa muito bem conseguida.
Muito obrigada pelas tuas palavras, Rob. É sempre um privilégio recebe-las! ( :
Feedbacks são sempre bem vindos e importantes!
Quanto ao filme do fim-de-semana, os únicos que vi, para além da minha vida vida, foram criados pelos clientes ahahaha
Talvez tenhamos parado para reflectir sobre situações semelhantes!
Muito provavelmente... filmes de clientes são sempre mais trágicos :-)
Todos eles com final feliz! Foi mais o barulho do que o estrago! ;)
Ainda há dias de sorte... ou de alguma sorte!
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