sábado, 10 de novembro de 2018

Muda a vida num instante

[Canção]
Muda a vida num instante,

qualquer dia normal,
por passo certo ou trilho errante,
história breve ou redundante
na esquina, ou no jornal.
Muda a vida num instante,
a mulher e o amante,
o vizinho é traficante
e o empresário elegante
veste conduta irracional.
Muda a casa, muda a hora,
o carro e a demora
do local habitual.
Muda a lei, muda o interesse,
o jurista e o inocente,
o julgado e a moral.
Muda o meio, mantém-se o fim,
o teatro e o arlequim,
a verdade e o Latim
dos que governam Portugal.
Muda a sentença e a diligência,
a transparência e a vigência
de um contrato cabal.
Muda a troca e a moeda,
sobe ao colo, desce em queda
(liberdade condicional).
Muda a vida num instante,
o banal e o interessante,
a cunha e o cessante,
a ternura conjugal.
Mudam-se tempos e vontades,
mares revoltos e tempestades,
mostram-se corpos e vaidades,
cai-se no godo – facilidades
de uma Era virtual.

Muda a vida num instante,
já vai sendo habitual.

9 comentários:

Francisco disse...

Mundo irrequieto, este...

«Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades», quando o tempo se muda agora ao segundo apenas quem não tem relógio está saciado.
Abandonámos o sol e a lua do dia e da noite, agora são ponteiros que regem a vida no mundo.
A informação é tanta e de todos, a sua veracidade questionável mas a sua mensagem facilmente divulgada...
A corrupção é algo pertencente ao homem, desde os tempos em que o homem o é. Roubar por ganância, inveja, luxuria...
Às vidas viram-lhes as ampulhetas, e quando a areia carece no topo, arranjam outra e não dão a volta naquela que há uns segundos era a sua. Não há tempo para se estar em dificuldades, os segundos contam e a vida não para...
As relações por conveniência, os feitos por recognição, a vida para mostrar... Pois não conseguem viver consigo mesmos... Para si mesmos...

...

Sei lá... Acho que foi estes e muitos mais pensamentos que me moldaram, a mentira que se vive, ou que se quer viver, porque a vida por si só não chega... Mas no fundo ninguém consegue viver a sua, não é por não chegar, é por ser em demasia... No fim engana-mo-nos, ou pensamos enganar a vida, sorrindo à areia na ampulheta que mantemos sempre em cima...

Rita PN disse...

Análise muito certeira do que pretendo escrever. Foste ao fundo das questões, conseguiste entender o que pretendo evidenciar e expuseste de forma mais completa aquilo em que eu vos proponho pensar. Penso que referiste quase tudo. A tua capacidade de análise é extraordinária, Francisco. Sou fã! Um beijinho grande

Francisco disse...

''Penso que referiste quase tudo'' E eu vejo sempre um quase nada...
Há coisas que ficam escritas de forma subentendida, como um simples poema consegue escrever uma vida. Não são precisas muitas palavras, são precisas apenas e só aquelas que surgiram.
Quando se esmiúça algo, por vezes até o evito, pois remete-se muito a repetições para encontrar sentidos, a divagar-se do essencial, a fabricar palavras...

Nos poemas não... Diz-se tudo o que se tinha para dizer, e as palavras não são artificiais, são do nosso ser.

Fã? Hehe
Penso que um dia apelidei-te de minha mentora, e continuo a vê-lo dessa forma :)

P. P. disse...

Ai o tempo...
Passa mas vai deixando as suas marcas.
Bjs

Rita PN disse...

Deixa sempre, e tudo é cíclico, não é? Passar é o trabalho do tempo, ao fim ao cabo..por vezes, até ele se encontra fatigado do seu ofício. Um beijinho querido PP

cheia disse...

Afinal, tudo muda a todo o momento, nada fica igual.

MariaLi disse...

Está lindíssimo o poema. Todos somos retratados...
bom fim de semana!

Rita PN disse...

Muito obrigada pelo carinho e pela leitura! Efetivamente, cada um no seu registo, mas todos estamos presentes. Igualmente para si, um fim de semana feliz

Rita PN disse...

A mudança é uma constante da vida, não é amigo José? Um beijinho

Hipoteticamente

Dista-nos um quarteirão de luar onde, na sombra, os detalhes se ensaiam, os elementos se vestem de harmonia e onde todas as ruas parecem reg...