
Há sempre um momento que nos separa. O momento em que tu morres e em que eu assisto, impávido, ao teu desaparecimento. À beira do abismo. Na fragilidade visceral a que me condenas, não pela tua ausência física, mas pela constante presença emocional com que me manipulas os dias.
O nosso amor foi sempre a minha melhor criação, alimentada pelos meus pensamentos doentes e pelos fugazes encontros a que cedemos. Uma obra cuja temporalidade e materialidade suspeitas, me fazem agora crer, na possibilidade da sua não existência, sempre que te vejo morrer para o amor. Para o nosso amor.
Sou confrontado com a necessidade que as coisas e os acontecimentos têm, de ser apagados. É por isso que te matas, não é? Diz-me. É por isso que te matas? Queres apagar-te de mim, mas as marcas invisíveis não te deixam sair-me da pele.
Contigo, vivo constantemente à beira do abismo. Há sempre um momento que nos separa. O momento em que o amor vaza, escorre e cai morto, depois da despedida do teu corpo inerte. Sempre precisaste de sangue para que o teu nome ficasse gravado no meu coração.
Diz-me. Diz-me com clareza. No amor, qual é a vantagem de ser ferido, quando é por medo que morremos?
(Um texto escrito para a página 7HINK, no facebook.)
16 comentários:
Um texto muito bonito, com uma pergunta que nos faz meditar! =)
Beijinhos
Muito bom!
Talvez o ideal seja definir o que é amor e pode ser que se encontre uma resposta para esta interrogação.
Muito obrigada Anocas! :-)
Por agora fica a pergunta, talvez um dia a humanidade encontre a resposta :) ou melhor, a sua resposta.
Beijinhos
Muito obrigada querida Fashion
Será passível de uma definição concreta? Julgo que não. Talvez porque ele, o amor, se faça representar das mais variadas formas, assumindo os mais variados gestos e efeitos secundários consoante o indivíduo.
Neste caso, se por um lado assumiu um papel perturbador e doentio, deixando de ser amor e tomando as rédias da obsessão, do outro sempre se comportou defensivamente, a medo e ferindo o primeiro, enquanto o empurrava para a beira do precipício.
Talvez seja como dizes, no dia que soubermos definir o amor, conseguiremos as respostas mais simples para as perguntas mais inquietantes.
Porém, a minha resposta será diferente da tua, a tua será diferente das demais e entre essas, também nenhuma será igual.
Afinal de contas, que papel assume dentro de nós o amor?
Pode ser uma mera convenção social reforçada por séculos de exposição à mesma, pode ser uma reacção puramente química ou pode ser algo que seria importante estudar, e já o é, do ponto de vista das emoções :-)
Se o amor fosse assim para todas as pessoas, haveria mais sangue derramado mas seguramente um sentimento mais intenso, descontrolado e transcendente ao corpo :)
Não sei se a parte do amor sangrar me agrada muito... Mas é uma verdade. Para sangrar é preciso ser forte. Mas temos que ter em atenção que o forte nem sempre é sentimento, mas sim obsessão doentia...
Há aqui vários laivos comportamentais e sentimentais.
Pessoalmente, o escorrer todo é demasiado pungente para mim :(
O facto de "escorrer" só por si já denota um excesso, um transbordo. Ou, sendo mais falista, o esvair do que restou, para fora do corpo...
Perfurar, esvair, morrer... :(
Não queremos disso :)
De forma alguma ;p
O amor pode ser tão transcendente como a linha ténue entre a realidade da terra firme e o precipício. Impõe-se a questão se é preferível doentio ou ausente.
Beijinhos, Ritinha.
Não tenho que escolher, graças a deus, mas se o tivesse, preferia ausente.
Beijinhos Sapinha querida :)
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